Dança-Teatro ou
Teatro-Dança?
A
dança-teatro se configura como uma arte com características específicas,
que se distingue da dança contemporânea e do teatro. Muito mais do que
simplesmente unir teatro e dança, a dança-teatro é uma expressão
artística que se vale de múltiplas linguagens para a elaboração de uma
estética e uma dramaturgia própria, diluindo a fronteira entre essas
modalidades artísticas, de tal forma que não se identifica onde começa
um e termina a outra.
Laban deu os passos fundamentais para a criação da dança-teatro,
propondo a construção e ampliação de um repertório próprio de movimentos
em consonância com universo interior do intérprete.
Arte é pulsação, é uma necessidade absoluta que se impõe àqueles que a
realizam. Todo artista trás em seus trabalhos vestígios de influencias
que absorve durante sua vida, oriundas de diversos âmbitos
sócio/culturais. Inúmeros fatores compõem uma personalidade artística,
uma maneira de olhar e recortar a realidade e de atuar na vida e na
arte, que de todo não se encontram separadas.
A
Cia Artesãos do Corpo foi construindo ao longo de 10 anos uma maneira
particular de realizar a dança-teatro, criando processos de investigação
próprios. Soma-se a isso um convívio eclético, uma direção que leva em
conta uma certa pedagogia na relação com seus componentes, que
entre outras coisas têm direito ao tempo para poder amadurecer
suas idéias e convívio com os demais. Isso acaba moldando um fazer
artístico, onde a primazia não é a técnica, mas as pessoas.
Estimulo os intérpretes da Cia Artesãos do Corpo a circular sem
preconceitos pela dança, pela performance, pelo teatro, e outras
linguagens, de tal forma que o que importa não é necessariamente o
primor em nenhuma dessas atividades, mas a necessidade de se
manifestar através delas. Em suas experimentações, dogmas e tabus
pertinentes a certas categorias artísticas devem ser abandonados, dando
lugar a ousadia e ao risco. A academia é o lugar mais apropriado para
defesa de teses. No palco só há espaço para a arte.
Os depoimentos sobre determinado tema, ora pessoais, ora coletivos,
obrigam o artista a mergulhar na linguagem da qual lançaram mão, seja
por necessidade do tema tratado ou puramente pessoal de investigação e
prazer. Nesse momento um cem numero de questões surgem e a quebra de
princípios rígidos se faz necessária.
A pesquisa de linguagem que a companhia
desenvolve possui inúmeras especificidades que demandariam outras
considerações, mas o que é claro é que a
dança-teatro é uma linguagem artística diferenciada e independentemente
dos processos adotados para a construção de seus espetáculos e rotinas
de criação, merece um olhar mais atento da crítica e dos pesquisadores
para aprofundar a discussão sobre o que surge desse hibridismo que se
configura como uma linguagem e uma forma de expressão.
Mirtes Calheiros
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