Resposta à Crítica - Plataforma TD
 
                                                                                                                                       

"Se quisermos, a título de metáfora, tomar a obra de arte como uma fogueira em chamas, então diante dela coloca-se o comentador como um químico e o crítico como um alquimista. Enquanto para o químico unicamente importa a madeira e as suas cinzas em sua análise, para o alquimista só a chama mesma guarda um enigma: o do vivo. Assim o crítico pergunta pela verdade, cuja flama vivaz segue queimando sobre as pesadas toras do acontecido e a leve cinza do vivenciado."
Walter Benjamin

 
Se não bastasse o cenário desolador da cultura no Brasil, a falta de verbas consistentes para que as companhias possam investir em seu desenvolvimento com a confiança na continuidade (tornando os trabalhos individuais e amarrados às universidades mais seguros e atraentes), a falta de condições nos teatros disponíveis aos grupos que não possuem apoios substanciais, agora temos para confundir mais ainda esse panorama críticos de última hora, irresponsáveis e apressados que não se deram ao trabalho de investigar melhor sobre o que estavam falando.
 
A iniciativa do Teatro da Dança com a mostra Plataforma Estado da Dança parecia a principio louvável: uma mostra que servisse como vitrine aos grupos contemplados pelo PROAC/2008 para que mostrassem seus trabalhos. Para tanto convidariam um trio de observadores de áreas distintas (dança, teatro e cinema) para opinar sobre os trabalhos. Dito assim nos pareceu algo muito produtivo, já que, pelo menos ao meu grupo, em dez anos de atividades, merecemos poucos olhares dessa qualidade e quando isso aconteceu foi muito proveitoso as opiniões/criticas que recebemos.
Com esse espírito aceitamos em apresentar "Cadência" na Mostra promovida pelo TD. "Cadência", o espetáculo "Verité" e a oficina "Dança e Arquitetura" compunham o projeto "URBE - duas criações para espaços públicos e paisagens urbanas", contemplado pelo edital de criação do PROAC 2008.
 
Ao ler os resultados das observações feitas pelos digamos críticos/observadores convidados pelo Teatro de Dança, nos sentimos no dever imediato de resposta diante da irresponsabilidade das opiniões, que são, repito apressadas e mostram desconhecer o caminho que trilhamos em dez anos, construindo uma filosofia de construção e instalação de trabalhos na rua.
A que serviu tudo isso? Qual a intenção dessas pessoas? Eles querem dizer que o Governo do Estado está jogando dinheiro fora? Que todos os grupos são equivocados? Para quê escrever sobre o trabalho dos grupos? Era para quê exatamente?
 
Para minha companhia, um apanhado tão grande de equívocos não servirá para nada.
 
O especialista Ícaro Martins confessou. E pelo teor das miseras linhas escritas sobre nosso trabalho, temos certeza, que os outros dois (Célia Gouveia e Matteo Bonfitto) também não tenham referências suficientes para falar sobre a pesquisa que a Cia. Artesãos do Corpo desenvolve desde 1999.
Vamos oferecer, a seguir, como contrapartida (desculpem-nos pelo uso desse termo, mas a citação é uma homenagem ao nosso misero cotidiano artístico), um breve histórico do percurso da companhia, com ênfase nas ações voltadas para espaços públicos e paisagens urbanas, procuraremos ser rápidos e sucintos como foram as "criticas", mas fiquem tranqüilos, seremos menos superficiais:
 
1) Em 1999 a bailarina e socióloga Mirtes Calheiros cria a Cia. Artesãos do Corpo. Fruto do laboratório/preparação para 1ª criação da companhia (Espasmos Urbanos) nasceu a instalação coreográfica para a rua - Olhar Urbano, apresentada em diversos festivais e cidades: Coimbra Dança e Lugar à Dança em Portugal, Bienal de Dança de Santos/07, Mostra Sesc de Artes, Centro Coreográfico do RJ, SESC - SP (Pompéia, Santana, Campinas, São José do Rio Preto), além de apresentações em pontos significativos da cidade de São Paulo como Estação da Luz, Pateo do Colégio, Av. Paulista, Terminal Rodoviário do Tietê, entre outros.
 
2) Durante dois anos - 2002/2003 - a companhia realizou o projeto Teatro na Janela. Todas as quartas às 17h30h apresentávamos uma história que continha dança, teatro, circo entre outras linguagens. O projeto teve uma repercussão enorme com matérias em jornais e televisão. O Teatro na Janela acontecia na janela da antiga sede da companhia e foi para muitas crianças e adolescentes da região da Santa Cecília o primeiro contato com as artes cênicas.
 
3) Com o apoio da Funarte a companhia criou o espetáculo de dança para a rua Formas que o acaso e o vento dão às nuvens, inspirado nas Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino. Esse espetáculo também participou do Festival Lugar à Dança em Lisboa e circulou por diversos espaços de São Paulo e de outras cidades do Brasil.
 
4) Desde 2006 a Companhia realiza anualmente o festival VISÕES URBANAS ligado a rede internacional de festivais CQD - Cidades que Dançam, criado com o objetivo de difundir e apoiar criações voltadas para espaços urbanos, o festival já recebeu ao longo de suas quatro edições artistas de Portugal, Espanha, Cuba, Argentina e França além de artistas e companhias brasileiras de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Alagoas e São Paulo.
 
5) Na ocasião da participação dos Artesãos do Corpo no festival Coimbra Dança/2005 foi realizada a oficina "O Corpo e a Cidade" com bailarinos de diversos países sob a coordenação de Mirtes Calheiros. O resultado da oficina foi apresentado no âmbito do festival com enorme sucesso. Ainda com a colaboração da Associação Vo'Arte de Lisboa, a companhia realizou uma residência artística com um coletivo de bailarinos e arquitetos portugueses que resultou na criação de uma performance apresentada no festival Lugar à Dança em 2006.
 
6) Através da Caravana Funarte-Petrobrás de Circulação Nacional - A Companhia apresentou diversos espetáculos de seu repertório em um projeto integrado que incluía espetáculos de palco, intervenções e espetáculos em espaços públicos e uma oficina. O projeto, que tinha o nome de "Visões Urbanas - Itinerância" circulou por Blumenau, Rio de Janeiro, São Luis do Paraitinga, Ilha Bela, São José do Rio Preto e Campinas.
 
7) Com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura a companhia criou e circulou por seis cidades (São Paulo, Santos, São Bernardo, São Sebastião, Ilha Bela e São José dos Campos), dois espetáculos para espaços públicos e paisagens urbanas - Cadência e Verité. Além dos dois espetáculos a oficina "Dança e arquitetura", também fazia parte do projeto URBE, contemplado pelo PROAC/2008.
 
8) Visando à formação de público, a instrumentalização de artistas e a difusão da dança em paisagens urbanas desenvolvemos diversas propostas de interfaces com outras áreas do conhecimento, entre elas as oficinas "Paisagens do Corpo" e "Dança e Arquitetura", o ciclo de palestras "Complex©idades", com filósofos, físicos, geógrafos, escritores tratando do multifacetado universo urbano e criando conexões com o corpo e a dança e também o encontro "Mulheres de Laban", bate-papo com coreógrafas, bailarinas, pesquisadoras que desenvolvem trabalhos a partir dos conceitos de Rudolf Laban tendo como foco a convergência de suas pesquisas com a cidade e a arquitetura.
 
Além da falta de conhecimento dos especialistas sobre a pesquisa da companhia, há de se destacar a falta de dados técnicos sobre o Programa da Ação Cultural do estado de São Paulo - PROAC e seus objetivos, bem como as obrigações que os grupos contemplados tiveram que cumprir. Podemos falar sobre a obrigatoriedade de circulação dos espetáculos, mesmo se tratando de um projeto de criação. Será que os especialistas sabiam que cada espetáculo tinha que ser apresentados em cinco cidades?
 
Não vamos entrar em detalhes sobre a legitimidade dessas contrapartidas, pois uma vez que aceitamos as condições, temos que jogar de acordo com as regras, mas não podemos aceitar uma crítica nos acusando de ignorar os aspectos históricos do Pateo do Colégio e a não exploração dos aspectos arquitetônicos desse espaço.
 
Caros especialistas: Cadência não foi criado para o Pateo do Colégio. Foi criado para qualquer espaço público e mais uma informação, ele foi apresentado com enorme receptividade do público na Praça Mauá (Santos), no Píer do Centro Antigo da Vila (Ilhabela), na Praça da Matriz (São Bernardo do Campo), na área de convivência do Sesc (São José dos Campos), na Praça Central ( São Sebastião), no Largo santa Cecília (São Paulo).
 
O que vocês queriam ver? Bailarinos fantasiados de índios e jesuítas? Que subíssemos nas paredes da igreja? Que nos pendurássemos no obelisco? Enfiássemos a cabeça dentro do sino?. Respeitamos quem trata o espaço público artisticamente com essa abordagem corporal, mas nossa opção estética é outra. Buscamos uma relação sensorial e verdadeira com o espaço, e dessa presença descobrir as possibilidades e latências no ato mesmo de estar e dançar
 
Cabe aqui uma pergunta sobre a cobrança por referências históricas. E se fossemos nos apresentar na Praça da Sé, no vão livre do MASP, no Centro Cultural M. Boi Mirim? A cada local um novo espetáculo? Será que os espetáculos de palco que se apresentam na Galeria Olido, pensam que ali há muitos anos atrás tinha um cinema, que o Teatro de Dança está situado em prédio histórico e um dos mais famosos da cidade de São Paulo pela sua vista maravilhosa da maior cidade da America do Sul, ou os bailarinos do Municipal precisam saber quem foi o arquiteto que fez aquela maravilha onde eles deslizam suavemente suas sapatilhas? Só para exemplificar, em maio de 2009 a Cia. Artesãos do Corpo realizou a 4ª edição do festival Visões Urbanas e recebeu artistas de diversos estados do Brasil e também de Portugal, Cuba, Espanha e Argentina. Todos ocuparam o Pateo do Colégio e todos utilizaram o espaço arquitetônico de maneira distinta e é óbvio sem nenhuma referência histórica ao Pateo. O cenário está ali, as pessoas tomam contato ou lançam um novo olhar tendo a dança como interlocutora. Não buscamos uma única via de contato com o espaço e nem um raciocínio linear. Para nós o espaço altera menos a dança do que a dança altera e dá outros significados ao espaço. É muito diferente fazer o "Olhar Urbano" na Av.Paulista, no Pateo do Colégio, no Largo Santa Efigênia ou no Parque Mondegal em Coimbra, não por que adotamos outra estrutura coreográfica, mas porque o espaço é diferente e tem outra história, outra dinâmica de convívio e uma memória afetiva e simbólica. Não precisamos ficar mostrando explicitamente o poste, a placa de trânsito, o pedregulho, o sino.
 
Aliás na apresentação que os especialistas assistiram, aconteceu um processo natural para a definição do espaço cênico, foi a posição do sol que definiu o espaço da intervenção, pois as pessoas e os observadores/críticos ficaram literalmente na sombra! O que a gente poderia fazer ir se apresentar lá do outro lado e ignorar o público?
No nosso entendimento cada novo espaço requer adaptações e novas estratégias de diálogo e interação com a platéia e com o espaço arquitetônico, mas é tão primário e preconceituoso afirmar que a interatividade é uma prerrogativa dos espetáculos de rua que chegamos a duvidar do que estávamos lendo. Gostaria de saber por quê? Quer dizer que no palco a interatividade não é necessária? E que uma vez que o espetáculo é na rua o público tem que ser entretido? Estamos falando de arte não de entretenimento.
 
“A totalidade é alcançada pela apresentação do singular”
Goethe
 
 
Algumas considerações para os especialistas:
 
À Célia Gouveia:
Às vezes é bom se surpreender. Não ver o que se espera do título, achamos que não é necessariamente ruim. Percebemos que suas criticas foram feitas a partir de padrões e pré- conceitos. Talvez quisesse ver códigos de teatro de rua: um círculo de giz no chão, o povo em volta, o exagero, maquiagem, elementos da cultura popular. Quanto ao clown, talvez você quisesse dizer arlequim ou corifeu. Quanto ao vocabulário exíguo: Graciliano o tinha. Não só você mas os outros especialistas saíram de casa pensando em ver bailarinos atléticos dando inúmeros saltos e piruetas. Desculpe por decepcioná-los. Dá próxima vez sugerimos vir assistir nossos espetáculos de coração aberto à surpresas.
 
À Icaro Martins
Você elogia e critica o mesmo elemento cênico utilizado pela companhia - o risco de giz no chão. O que é isso? Talvez você tenha se confundido, mas será que você não releu sua crítica? A contradição estava no parágrafo abaixo. Fica o convite para assistir outros trabalhos da companhia e também gostaríamos imensamente de saber você gostou ou não?
 
À Matteo Bonfitto
 
Sua fala é um pouco mais bonita, então vamos traduzir pro corintiano:
Algo interessante estava rolando, mas não consegui conectar, então busquei algo nas coisas que já sei verbalizar. Não achei. Disso concluo que o problema é do espetáculo. Eu gosto mesmo é de luxo, gente subindo nas paredes, técnica clássica.
 
Como conclusão, parafraseio o senhor das paráfrases:
Baseado em tais considerações, pode-se reconhecer uma ausência de rigor no desenvolvimento da crítica proposta aqui, fato esse que produziu, em sintonia com a
intelectualidade nacional, um resultado genérico e superficial. Caberia aqui, talvez, uma reflexão mais aprofundada sobre as possibilidades de construção elite pensante de fato.
 
 
Para enriquecer o diálogo seguem algumas considerações de Jeanne Marie Gagnebin retiradas do livro "A propósito do conceito de crítica em Walter Benjamin":
 
"Benjamin faz da abertura, do não acabamento e da capacidade de transformação, a característica essencial da obra artística. Cabe à atividade crítica abrir o espaço necessário a essa transformação. Esta tarefa, ao mesmo tempo modesta e essencial, apóia-se numa análise minuciosa do material da obra, material histórico e filológico, portanto datado e efêmero. A este "teor material" Benjamin opõe o "teor de verdade" da obra, que transcende sua finitude histórica. Contudo, se a verdade da obra, por um lado, ultrapassa seu caráter historicamente limitado, está, por outro, indissociavelmente ligada à obra; ela só pode descobrir-se no seio da organização do texto compreendido como produção histórica."
 
"É por isso que Benjamin põe a necessidade do trabalho prévio de comentário à elaboração crítica. O critico deve ser, primeiro, um comentador, tal o monge medieval, que se aferra ao que ele não compreende no texto, aos elementos carregados de uma historicidade que reduz a nada toda pretensão de compreensão imediata. Em vez de esconder nossa admiração e mesmo nosso embaraço diante de tais elementos, sob pretexto de buscar uma verdade "sempre atual", a prática do comentário sublinha, pelo contrário, que, se há verdade, ela só pode ser encontrada na sua ligação íntima com o histórico e o passageiro, com o que hoje só nos fala na sua distância e na sua estranheza. Benjamin criticará, mais tarde, nas suas teses "Sobre o Conceito de História".' a teoria diltheyana da ' empatia" (Einfulilung) pelas mesmas razões: uma verdadeira compreensão do passado não pode partir do que nós julgamos comum entre o passado e o presente, um comum que designamos demasiado depressa como a atualidade ou a verdade do passado e que, na maior parte do tempo, nada mais é do que uma ilusão lisonjeira para o nosso egocentrismo interpretativo. Reconhecer o que há de verdadeiro, o que há de único no passado ou numa obra é, primeiro, reconhecer o que nos afasta dela. Longe de querer, num velho sonho de imediaticidade, suprimir a distância histórica, o comentário insiste na obrigação de passar por ela para atingir a verdade do texto."
 
 
Consideramos uma infelicidade que uma iniciativa a principio bem vinda tenha tido um desfecho descuidado. Continuando assim, o festival do Teatro de Dança que acabou de nascer corre o risco de se desfazer, pois perguntamos: Quem mais irá querer se apresentar para depois ver seu trabalho tratado de forma desrespeitosa?
 
Para pensar.
 
Mirtes Calheiros, Ederson Lopes e Cia. Artesãos do Corpo

        
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