Arquitetura
do movimento.
Vivo em uma cidade
prisão! Seu nome? São Paulo!
Dizem que por aqui
existe um dos melhores cursos de arquitetura do mundo! Acho que sim, mas
fico imaginando se esses profissionais estão sendo ouvidos em suas
sugestões arquitetônicas e urbanisticas para melhorar a vida nas
metrópoles. A pesquisa de materiais, soluções arquitetônicas e
urbanísticas mais humanas, ecológicamente corretas e harmoniosas tem
sido apresentadas. Mas de nada têm adiantado.
O argumento
utilizado para não desenvolver tais projetos sempre é o fator
financeiro!
Mas esse é um
argumento questionável, pois a saúde da população fica prejudicada
quando não há uma visão ética/estética do espaço a ser ocupado pelas
pessoas e o valor não investido na “causa” acaba sendo duplicado no
“efeito”. Não vamos entrar no mérito dos materiais recicláveis que não
são utilizados e da responsabilidade sócio-ambiental que não existe na
maioria das empresas e órgãos públicos nessa cidade.
Vocês já visitaram
São Paulo? Aqui convivem bairros de inimaginável sofisticação
arquitetônica, com favelas de inimaginável pobreza. Miseráveis mesmo! O
argumento, já gasto, de que isso é fruto do capitalismo selvagem que
mantém mão-de-obra barata, não alivia a vida de quem convive com essa
cruel realidade. Mas o fato é que o Brasil possui uma das piores
distribuições de renda do planeta, se não a pior, fomentando com isso
uma indústria da pobreza.
Os que ficam fora
da festa (a maioria), quando submetidos ao caldeirão que são as cidades
contemporâneas, reagem à altura. O fenômeno é mundial. Aqueles que foram
banidos da festa do consumo reagem e ações violentas tomam o lugar das
reivindicações que não são ouvidas.
Aqui, o caos está
instalado. A maior cidade da América Latina, com quase dez milhões de
habitantes e sua vizinha o Rio de Janeiro, vivem uma degradação
ambiental, social e urbanística: ênfase no transporte individual, falta
de áreas verdes, especulação imobiliária, poluição e violência.
Essas condições
produzem algumas aberrações arquitetônicas. Luxo ao lado do lixo.
Edifícios sofisticados junto à favelas que muitas vezes apresentam
construções originais digna de um Gaudí.
Há algum tempo,
disseminou-se pelas capitais brasileiras a idéia de que com a utilização
de equipamentos ditos de segurança poderiam conter a fúria
da urbe menos favorecida. Assim mudaram rapidamente a paisagem
cosmopolita. Os muros cada vez mais altos e com lanças pontudas, possuem
farpas de “alta tecnologia”. Os antigos nós dos arames farpados foram
substituídos por lâminas mortais que cortam dos dois lados.
Não vou falar das
câmeras de “in-segurança” que até hoje não impediram assaltos; dos
seguranças particulares; da indústria do medo, das portas giratórias dos
bancos que impedem a passagem de velinhas inofensivas. As grades cercam
todas as habitações, edifícios, condomínios e parques transformando São
Paulo em uma enorme prisão. Para entrar em seu próprio edifício o
porteiro aperta um botão que abre a primeira porta-grade que finalmente
dará acesso ao saguão, devidamente equipado com câmeras. Toda santa vez
que você sair de seu prédio irá ficar por alguns segundos preso entre
essas duas grades, os que saem de carro não escapam do mesmo esquema.
Os moradores
gostam....Se sentem seguros... E não perceberam que apesar do alto
investimento o assaltante quando resolver agir, aponta o revólver ainda
na rua para a cabeça do funcionário do condomínio, ou aborda o morador
do prédio na entrada da garagem e pega carona com o mesmo, que
ameaçado, pede desesperadamente para desligarem alarmes e demais
equipamentos.
Os arquitetos
Isay Weinfeld e Marcio Kogan apresentaram na bienal 2002 de
São Paulo a exposição “Happyland vol.2” ironizando a neurose e o consumo
desenfreado dos itens de segurança. Havia instalações como um muro que
ao invés de cacos de vidro ou lanças tinha revólveres apontados para a
rua que caso necessário, atingia mortalmente o ladrão - sem sujar a
calçada! Ou um muro residencial, cuja altura é regulada de acordo com os
índices de violência do dia. O objetivo deles é tirar as pessoas do
estado anestesiado em que se encontram para os absurdos da realidade
desta cidade.
Ítalo Calvino,
em seu livro “As cidades invisíveis” ,alerta para as cidades que faz
você ver aquilo que ela quer que você veja. São Paulo é hábil em lhe
mostrar progresso e modernidade tentando esconder a miséria e o
sofrimento da população. O Rio de Janeiro quer que você acredite que ela
ainda é a Cidade Maravilhosa, tentando disfarçar a guerrilha urbana que
ceifa mais vidas do que a guerra do Iraque.
Assim como a dupla
de arquitetos citados acima, há muito que a Cia. Artesãos do
Corpo/Dança-Teatro (desde 1999), pesquisa uma linguagem que possibilite
o diálogo da dança com a cidade, provocando a reflexão das pessoas
através de intervenções sutis. Assim começou a pesquisa do primeiro
espetáculo do repertório da companhia Espasmos Urbanos e a
instalação coreográfica de rua: Olhar Urbano que
consiste no deslocamento o mais lento possível dos intérpretes da
companhia em locais movimentados.
Nossa linguagem se
baseia nos princípios de um arquiteto/artista plástico e estudioso das
motivações que levam as pessoas a se moverem. Difícil defini-lo por uma
só função. Ele foi um pesquisador completo, a frente de seu tempo.
Seu nome: Rudolf
von Laban.
A arquitetura de
um lugar ou de uma cidade pode estimular ou impedir os movimentos
declarava ele. O que pretendemos com a supervalorização das linhas retas
e dos planos verticais nas metrópoles ditas modernas em contraste com a
originalidade proposta pelos moradores dos bairros periféricos e
favelas, ainda que as condições de higiene, saúde e segurança sejam
precárias? Será que temos consciência dos efeitos que isso traz para a
sociedade e consequentemente para o corpo? Não será isso também um
problema da esfera do meio ambiente?
Posso afirmar com
convicção que a arquitetura de uma cidade reflete a ideologia de seus
governantes e o que a sociedade está valorizando em um determinado
momento, indicando como se encaminha para o futuro.
Rudolf von Laban
(1879-1958) nasceu na Bratislava, antigo império Austro-Húngaro e a
partir de seus estudos e sistematizações sobre as motivações que leva os
homens a se movimentarem foi considerado o “pai” da expressão corporal.
Sua formação acadêmica o leva a se deter nas formas geométricas criando
um sistema que abre caminhos às possibilidades de movimentação em um
espaço-tempo determinado.
Laban cria as bases
para uma dança inclusiva, pela qual qualquer pessoa está apta a realizar
sua coreografia, indo contra as técnicas de dança tradicionais, onde um
corpo específico é requerido para se submeter a um treinamento visando
apenas um resultado estético.
Em seu livro
Domínio do Movimento, encontramos a afirmação: o movimento é a
manifestação exterior de sentimentos internos. Laban antecipa
possibilidades de investigação do movimento por outras áreas do
conhecimento e atenta para a natureza simbólica dos mesmos.
Seus estudos
sugerem e incluem um constante diálogo entre as artes (instalações,
performances, teatro, etc...) e as explorações propostas por ele levam a
conectar corpo, mente e emoções. Para ele, o movimento não possui uma
ordem lógica, deixando a cargo de quem o executa uma possibilidade
infinita de pesquisa sobre as maneiras do corpo se organizar, indo
contra toda forma de represar o movimento ou coloca-lo sob regras
rígidas.
Em seu desejo de
progresso científico, vislumbra a interação entre as ciências e as
artes. Sua relação com a matemática, a arquitetura, a natureza o levam
ao conceito de Harmonia Espacial, cujo tema é o corpo no espaço ou
como o ser humano se relaciona com o espaço. Fala do corpo humano
“em termos de arquitetura tridimensional: comprimento, profundidade e
largura do corpo, além dos eixos vertical, horizontal e sagital – a
Cinesfera – o espaço pessoal que envolve o corpo e que oferece um modelo
para o espaço geral. “O movimento é uma arquitetura viva e segue as
mesmas leis de proporção nas suas partes que equilibra o todo” ( Dominio
do Movimento). Encontra a Proporção Áurea no Icosaedro e nos movimentos
cotidianos.
Sem a noção
de espaço não há desenvolvimento,
dizia Laban. Seus estudos se referiam aos espaços arquitetônicos e os
efeitos que causam na maneira das pessoas se movimentarem. Introduz o
conceito de arquitetura corporal e arquitetura do espaço, em que “o
corpo modifica e é modificado pelo espaço ao seu redor”. Utiliza o
conceito da Banda de Moebius (oito invertido) pelo qual qualquer
análise deve levar em consideração a idéia de que não existem lados e
oposições, mas tudo está em constante movimento transitando ao mesmo
tempo entre dentro e fora. A Lamniscata ou Banda de Moebius pode ser
aplicada a qualquer área do conhecimento ou investigação e aqueles que a
adotam fogem do maniqueísmo que uma visão dualista do mundo trás, indo
ao encontro de uma visão sistêmica.
Laban não cria um
método, mas um sistema que deixa ampla margem de ação para aqueles que
adotam seus conceitos em suas áreas de atuação. Os ensinamentos desse
incansável pesquisador vão muito além. Seu sistema de notação do
movimento antecipa softwares que apenas recentemente foram
desenvolvidos. Atualmente acredito que Laban estaria revendo seus
conceitos sobre corpo no que tange a velocidade e espaço, bem como os
espaços virtuais, o corpo desterritorializado, o corpo que se joga no
ar.
Pensando nas
proposições de Laban vamos olhar São Paulo mais uma vez.
Cidades como São
Paulo, verticais e sem recantos ou “redondos” convidam ao pragmatismo, à
velocidade e a corpos que não mais ficam nas ruas: que correm para casa
assim que possível. Nos edifícios corporativos existe uma tendência a
destinar amplas áreas que unem um complexo ao outro com a falsa intenção
de humanizar o aço e o concreto. Esses lugares abrigam plantas
ornamentais que não serão olhadas e se você experimentar sentar ou se
deter ali um segurança virá alerta-lo de que é proibido ficar neste
local.
As linhas suaves,
redondas que compõe recantos e não cantos como os ângulos das
megalópoles, foram banidas principalmente na parte do Brasil onde
habitamos. Casas ou edifícios históricos são demolidos, muitas vezes se
transformando em estacionamentos, tirando do povo seu direito a memória.
Mesmo nesse cenário
hostil as pessoas conseguem desenvolver suas vidas e não raro vemos
plantas nascerem literalmente do asfalto. Mais uma vez Ítalo Calvino em
Cidades Invisíveis, fala sobre seu fascínio pelo símbolo complexo da
cidade, pois ele lhe permitia maiores possibilidades de exprimir a
tensão entre a racionalidade geométrica e o emaranhado das
existências humanas.
A racionalidade
geométrica do MASP - Museu de Arte de São Paulo, consegue acolher
belamente essas existências: possui um enorme vão livre onde as
pessoas podem se abrigar, sentar, namorar, sem ter que consumir algo (a
arquiteta Lina Bo Bardi foi responsável pelo projeto). É um dos locais
preferidos da Cia Artesãos do Corpo para realizar suas pesquisas de
movimentos na rua.
Que mensagens Laban
deixa para arquitetura e para as artes cênicas?
A mensagem de que
não existem espaços vazios! “O que existe é uma ordem cósmica natural e
a presença do movimento em todos os aspectos da vida. Esqueça qualquer
idéia de estabilidade ou mobilidade completa: o equilíbrio é o resultado
de duas qualidades contratantes da ação”.
Mirtes Calheiros
Mirtes
Calheiros.
Socióloga, bailarina, diretora da Cia. Artesãos do Corpo/Dança-Teatro,
coordenadora artística do Festival Visões Urbanas(SP) e diretora do
Estúdio Artesãos do Corpo (espaço de formação e criação em dança e
teatro)
www.ciaartesaosdocorpo.art.br
Santos, Milton –
Edusp 2003 - Economia Espacial
Santos, Milton –
Edusp 2004 – Por uma outra globalização
Santos, Milton –
Publifolha 2002– O país destorcido
Laban, Rudolf –
Editora Summus - Domínio do Movimento
Calvino,Italo – Cia
das Letras - As Cidades Invisíveis
Mirtes Calheiros
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