Afinal, que pesquisa é essa?
 
                                                                                                                                                artigos e reflexões sobre a pesquisa de linguagem
                                                         desenvolvida pela Cia. Artesãos do Corpo desde 1999.

I

AFINAL, QUE PESQUISA É ESSA?

Por Mirtes Calheiros

Quando o Arqueiro dispara uma flecha atinge mais a si próprio!

Foi com os livros “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen” de Eugene Herrigel e “Dançar a Vida” de Roger Garaudy que demos início às conversas sobre: Afinal, que pesquisa é essa?, tarefa já antes tentada mas nunca concluída. E será que precisa? Pois não foi dessa vez que chegamos àquilo que se convencionou chamar de “final”. Foi mais uma tentativa de sistematizar, desmistificar, falar sobre nossos processos de criação.

Sistematizar? Nem pensar! Ao longo dessa coletânea de e-mails e escritos fica claro o porque. Mas adianto que não podemos sistematizar um processo que sempre se inicia do zero. O que ordenamos foi como esse zero contém alguns procedimentos inconscientes e outros que são sugeridos por mim e que todos realizam, de forma individual ou coletiva, e que se repetem em todas as criações da companhia Artesãos do Corpo.

A definição do ZEN, logo no começo do livro A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, se aproxima de algo que gostaríamos de praticar e revelar em nossas experiências cênicas: uma experiência direta, imediata, não filtrada pelo intelecto. Transcendência do intelecto, desprezo pelas palavras, silêncio, gestos iluminantes e iluminados, comunhão com o cosmos.

O estudo dessas práticas e filosofias é realizado para nosso desenvolvimento pessoal e artístico na esperança de que isso chegue ao palco sem dizer claramente que é Zen ou Do-ho ou Seitai-Ho.

Antes que eu penetrasse no ZEN, as montanhas não eram senão montanhas e rios. Quando aderi ao ZEN, as montanhas não eram mais montanhas, nem os rios eram rios. Mas , quando compreendi o ZEN, as montanhas eram só montanhas e os rios, apenas rios.

Espero que cheguemos a essas conclusões. É tão mais tranqüilizador e calmo....

Continuamos a busca da arte sem arte; da compreensão de que arqueiro e alvo são uma só entidade e que assim como a idéia de lemniscata não possui dentro ou fora, em cima ou embaixo; do desprender-se de si próprio sem abandonar a técnica e a habilidade, algo como dançar com os “duendes” no Flamenco como queria Lorca; treinar para a intuição prânica ser aceita, ou seja, transcender limites do ego e deixar a sabedoria transcendental se manifestar.

Ao mesmo tempo em que é muito simples, requer treino para nos livrarmos das “cracas” que grudam em nossa pele, ossos e pior no nosso inconsciente.  A facilidade da prática do zen consiste em respeitar o corpo - dormir quando tem sono e comer quando tem fome. Quando surge o pensamento, passamos para o mundo onde conceitualizamos, deliberamos e o inconsciente primário se perde e já não comemos quando comemos, nem dormimos quando dormimos. Dispara-se a flecha, mas ela não se dirige diretamente ao alvo e este não está onde deveria estar.

Esquecer de nós mesmos é o conselho para atingir o ZEN : “o homem é um ser pensante, mas suas grandes obras se realizam quando não pensa e não calcula. Pensar sem pensar!”

Quanto ao parágrafo a seguir, se chegarmos a alcançar essa tranqüilidade, pensem quantas dinâmicas mudaríamos na companhia? Vocês são capazes de citar apenas uma?

Se o homem se convencer de que ele é a onda, o mar e o oceano e tudo o mais, ele alcança um estado de evolução espiritual e se torna um artista ZEN da vida. Ele não precisa, como o pintor, de telas, pincéis e tintas; nem como o arqueiro, do arco, da flecha, do alvo e dos demais acessórios. Sua vida no ZEN se expressa por todos esses instrumentos importantes, como manifestações da sua vida durante setenta, oitenta, noventa anos. Esse quadro se chama história.

Ao conversarmos sobre o Arqueiro fizemos um paralelo entre os ensinamentos do livro e a maneira da companhia pensar e realizar arte. Além da valorização da convivência a longo prazo garantindo processos longos de trabalho. Esses elementos possuem similaridade com a filosofia ZEN.

São eles:

- a leveza (sempre trabalhada levando em consideração o “peso” como parte integrante da leveza) e Nagimi a fim de atingir camadas mais profundas da percepção e sensibilidade;

- experiências de vida de cada intérprete, pois está no corpo de cada um, na idéia de movimento que se tem e para que valorizemos as experiências da vida cotidiana como parte integrante da arte;

- a exatidão como elemento de movimento que trabalha com forças musculares e psicofísicas na busca de uma fala assertiva;

- a opinião que se tem sobre os fatos da vida transformados em movimentos/dança;

- a idéia do ar/vento dentro e fora do corpo na busca de transformar o tempo, de sutilizar o movimento.

- a Lemniscata – a grande sacada de Laban e de tantos outros mestres zens – o que está dentro está fora, num contínuo sem fim. Lembrando do exercício de respirar vocalizando, só de pensar na letra a já estamos emanando seus efeitos, antes mesmo de sonorizar o a. Passem isso para outros recantos do pensamento e da vida.

Nas primeiras conversas do grupo, perguntas, provocações e algumas afirmações foram surgindo:

- similaridade entre as idéias do livro e nossa movimentação

- identidade com Butô, Do- Ho , Sei-Tai, Aikido etc..

- em que ou em quais situações nos afastamos dessas idéias ou práticas?

Diogo:

- limitações e ajuda do arcabouço literário

- distrai?

- qual a preparação do espaço?

- qual a preparação do corpo?

- qual o ecossistema que auxiliaria o aprendizado? mais fácil? mais profundo? mais reflexões?

- trabalhar com modelos de criação utilizados nos workshops

Ederson:

- retornar ao espírito do aprendiz. sistema utilizado nos workshops

Felipe:

- trabalhar com common creatives – youtube

Mirtes:

- tudo degenera?

 

E IMPROVISAR? Seria deixar o inconsciente falar, mas também intensificar o treinamento para poder improvisar em cena aberta trabalhando com a idéia da onda do movimento? A arte da obra interior que não se desprende do artista como a exterior, a que ele não pode fazer, mas unicamente ser, surge das profundezas que não conhecem a luz do dia.

 

O livro do Arqueiro é pra ser lido e relido. Ler uma frase e depois de um tempo reler. Nos conforta,  chama atenção para regularmos e reajustarmos o faz-faz de cada dia, para pensarmos em sermos mais serenos sem perder a energia, ou o koshi. O livro nos deu a certeza de que devemos permanecer no caminho das práticas em que a percepção interna do corpo é valorizada.

 

__ De tempos em tempos retornamos ao livro que me deu forças para seguir dançando – Dançar a Vida, Roger Garaudy.

Não existe ato mais revolucionário no mundo do que a ensinar um homem a enfrentar o mundo enquanto criador. Essa forma viva de comunhão e de participação da dança moderna recupera para a dança sua função sagrada, isto é, sua função de criação do homem.

 

Garaudy foi um filósofo poeta, como são todos os bons filósofos. Com um apanhado do cenário da dança contemporânea até M Béjart e seu Balé do Sec.XXI a obra traz um excelente roteiro dos caminhos percorridos pela dança. Hoje é um dos livros de cabeceira da companhia e reafirma muitas das nossas crenças sobre para que fazemos o que fazemos, ou seja, dança contemporânea.

 

As similaridades com as idéias de Béjart foram discutidas em nossos encontros: Béjart produzia movimentos e formas que tinham uma alta carga de emoção, mas sem contar uma história ou ilustrar uma tese, de tal modo que todos podem projetar seus próprios desejos latentes e vive-los mais intensamente e conscientemente. Béjart dizia: as pessoas encontram a si mesmas e não a mim, que só interesso a mim mesmo. É nisso que o balé é superior às outras artes, pois exige a mais completa participação dos espectadores.

 

Garaudy refutava a idéia de levar ao público uma lição pronta. Queria a platéia consciente e desperta para a revolta, que através de um choque nos obriga a tomar uma decisão, a abraçar o real e seus combatentes num mundo em fusão.

Uma das idéias ventiladas em nossas conversa foi a de Common creatives (Felipe) e Garaudy já intuía caminhos semelhantes: “pela primeira vez na história a dança conta com a possibilidade de deixar traços duráveis com o registro que o filme e a TV permitem. Graças a esses mesmos meios, ela tem agora a possibilidade técnica de dirigir-se a multidões incontáveis”

 

Garaudy convoca todos a realizar a dança coral ao invés da dança do confronto. Desde 1972, ano em que o livro foi escrito, a arte tem sido um meio de “contrabalançar o mal do mundo”, mas ainda o que prevalece em nossa sociedade é a dança do confronto: corpos que se enfrentam, se submetem as humilhações de um transporte público que os colocam em situações de risco e constrangimento; corpos que acreditam que precisam eliminar para que sobre mais para si mesmo; corpos que não são mais desejantes, uma vez que cansados não mais se enlaçam, só se batem.

 

A dança coral foi uma das propostas de Laban logo vetada pelo nascente nacional socialismo alemão. À obra de R. Laban a companhia vem dedicando muitos momentos de reflexão. Nossa pesquisa em muito se aproxima dos ensinamentos desse humanista e pensador da dança. Em outro momento nos deteremos nesse tema: Os ensinamentos de Laban e a Cia Artesãos do Corpo.

 

A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, Dançar a Vida e Domínio do Movimento no Palco de Rudolf Laban se complementam de forma magnífica e nos ajudam a refletir e organizar nossos caminhos, idéias e movimentos.

 

Iniciamos esses encontros em março de 2008, após a conclusão da criação da peça Duas mulheres com sombrinhas brancas no lugar da fábrica de explosivos, lançando algumas questões para esquentar as conversas:

.. palco como MA

Não fazemos (pesquisa)! Seria vergonhoso! E SIM- temos idéias colocadas no palco. Tudo o que se perde e que existe entre as formas fixas. Realizamos uma experiência estética; utilizamos o palco como MA; chamado para um olhar ativo – age sobre o que vê! A imagem como pauta; tentativas e erros. Conceitos só existem por comparação. Felipe  

... não o que une, mas a contradição!

Os acadêmicos fazem pesquisa de araque: regra... anomalia... nova regra. Fundamentamos e generalizamos as propostas a fim de expandir para campos não imaginados no início! Buscamos descobrir não o que une, mas a contradição! O paradoxal (e eu acrescento a sombra). Buscamos propor exceções e casos especiais. Experiências e experimentos da Cia. Artesãos do Corpo. Para L. Strauss – como os mitos pensam nos homens. Diogo

 

... rejeitando colocar em primeiro lugar custos, competitividade, liquidação e promiscuidade.

Em quais teóricos resvalamos? A Cia. segue sem métodos, regras ou teorias. Contra corrente – pesquisa maneiras de criar e produzir levando em conta as pessoas, rejeitando colocar em primeiro lugar custos, competitividade, liquidação e promiscuidade. Também pesquisamos como viver juntos? Transcendendo a lógica. Ederson

... salta aos sentidos no meio do fazer.

Encontro algo que já estava lá enquanto vontade e que de repente salta aos sentidos no meio do fazer. Andrea

.

.. há um espírito de corpo.

Hoje há um espírito de corpo. Sabemos o que significa pertencer à Cia Artesãos do Corpo. Mirtes

 

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II

“Deus fecunda a madrugada para o parto diário do sol”

Por Ken Kronaz (Felipe Ken)

Fazemos pesquisa? Primeiro quero pensar em O Que Fazemos? para depois pensar se dentro disso fazemos pesquisa. Mas vou direto pra conclusão: não estamos no time do teatro nem da dança. Acredito que nos pautemos pela imagem. Passamos pelo subconjunto do corpo e do movimento, mas nos orientamos pelo que a Mirtes chamaria de experiência estética, que seria o conjunto mais abrangente, pois enfim se aceita qualquer coisa que possa ser mostrada.

Acho que precisamos do palco italiano na maior parte dos trabalhos, como se o palco fosse um MA para todo escondido, invisível por trás dos panos, e nós media-arautos filtrando os baques para o público pagante de má vontade (ou não).

Dentro disso, fazemos pesquisa? Temos idéias e botamos lá, tentamos procurar caminhos que não passem pelo espetaculoso, algo que seja mais piano, evitando os fogos de artifício lançados à face e preferindo um chamado pelo olhar que, ativo, age com e sobre o que vê. Isso já seria bastante pesquisa, pelo menos nesse mundinho que fica falando em quebrar a quarta parede e a única coisa que faz é chamar gente pro palco, descer à platéia, se render aos cacos...

Mas, graças à deus, não apresentamos pesquisa. Pesquisa é pra quem é da área. Ficar dando título, dizer que é espetáculo, cobrar entrada e oferecer pesquisa é o ó do borógodó. Aquela nossa característica acima descrita, de ter a imagem como pauta, nos salva dessa vergonha. Mas também não se trata de pesquisa partindo de hipóteses, seria ainda uma questão de fuçamento e intuição. Tentativa e erro sempre, sem se deixar seduzir por um dito veio de ouro. Uma hora o veio esgota e aí, vai viver de quê, irmão?

Pessoalmente, minha pesquisa anda meio capenga, por não poder estar mais presente, e este seria o momento do encontro de corpos, depois de tanto tempo interessado em eu, mim mesmo e Irene. As artes marciais cobrem um pouco a falha. Minha pesquisa é por tudo o que se perde e que existe ENTRE as formas fixas. Temos os katas, as posições, os golpes, mas é como se aprendêssemos as sete notas e ignorássemos uma área de transição de não sei quantos mil hertz que há entre um dó e um ré. Tipo o judô. Nele, preciso de três coisas, desequilibrar o oponente, fazer um ponto de apoio e queda. Dizem que exsitem 14 direções para o kusushi, o desequilíbrio inicial, como se estivéssemos de pé sobre uma rosa dos ventos.

Mas existem 360 graus e infinitos decimais. E se eu entrar o golpe um pouco fora da direção 'oficial'? Voltar e tentar de novo? Ou procurar outras formas de apoio, uma compensação no lançamento ao chão? Nesse ponto que eu começo a encasquetar com o Laban. 3 planos? Por que não 20? Kinesfera? Pensar em quantas e não pensar em ondas, pensar em quantitativo e não em contínuo? Notação Laban? Como vou saber que levantar o braço é pra levantar a partir do pulso e não como uma coisa só? Tudo bem, é o ABC que nos permite posteriormente poetizar o corpo, mas tem gente levando na base normativa, aí não dá.

 

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III

O que a Cia. Artesãos do Corpo pesquisa?

Por Ederson Lopes

Merleau Ponty diz: se nenhuma obra se completa absolutamente, cada criação modifica, altera, esclarece, aprofunda, confirma, exalta, recria ou cria antecipadamente todas as outras.

Pegando esse gancho queria falar que vejo nossa pesquisa como um processo contínuo, um eterno questionamento, um desafio constante. É uma afirmação artística na ação, na prática, nas estratégias de convívio e criação que se estabelece a cada novo espetáculo e projeto. Pesquisamos a construção de uma linguagem que não segue nenhuma regra pré-estabelecida pelos meios acadêmicos, ou pelas fórmulas, métodos e teorias de nenhum “expert” das artes-cênicas. Apesar de resvalarmos em inúmeros deles (Artaud, Dário Fó, Brecht, Pina Bausch, Stanislavski), procuramos encontrar um caminho orgânico, uma rota diferenciada, e  na experimentação física do tema trabalhado, criar uma persona-corpórea que dê conta de expressar o nosso desejo cênico. O método Laban não é realmente a nossa Bíblia, ultimamente devido aos projetos ele tem sido meu livro de cabeceira, então refletindo cá com meus botões, não me abstenho de afirmar que pesquisamos uma abordagem mais suave das reflexões do Laban, sem nos preocuparmos com sua quinesfera, seu ecosaedro e suas notações, mas sim em lançar um olhar para seu maior legado que é a busca de uma dança livre, um movimento que expresse nossas inquietações e emoções e que dê um sentido ao mundo que vivemos. Ponty fala que: o mundo está ao redor de nós e não diante de nós. Portanto se nós somos o mundo, acredito que pesquisamos como expressá-lo através do movimento. 

Estamos pesquisando uma maneira de criar, baseada em princípios que avalio como essenciais para a arte: valorização da diversidade corporal e intelectual dos intérpretes e colaboradores, respeito, liberdade, humanidade e tolerância. Atualmente tenho me debruçado sobre uma idéia de produção mais voltada para o ser-artista (e humano também, por que não?), pensar na pessoa que levará a conclusão do objetivo proposto pelo projeto, pensar no item mais valioso da criação que são as pessoas. Isso é uma pesquisa intensa, pois envolve questões que mexem com muitas problemáticas do nosso mercado cultural (eficiência, produtividade, excelência, custo-benefício, orçamentos, competitividade etc) e também com uma dinâmica que se estabelece entre nossos pares que é a da liquidação e da promiscuidade.

Aliás, (con)viver juntos, criar juntos, crescer juntos é uma tarefa complicada e uma pesquisa infinita. Uma pesquisa dos limites do outro, do espaço criativo do outro, do comprometimento e da dedicação do outro, dos conflitos existenciais e estéticos do outro, do peso, da fluência, do tempo e do espaço do outro. Será que viver sozinho não é mais fácil? Talvez eu devesse perguntar a um ermitão ou ler o livro do Barthes e descobrir o que ele fala sobre “viver juntos”. Creio que nossa foto deva estar na página 331 com dizeres homenageando a habilidade da Mirtes em segurar esse fio de nylon (transparente, mas forte) que nos mantém ligados e em contínua investigação.

Brinco que sou o “porquinho prático”, mas essa brincadeira me levou a inúmeras reflexões e uma delas me fez perceber que meu cotidiano é uma pesquisa também. Sabe aquele papo de japonês que achamos tão bonito, da não separação entre a vida e a arte. Eu tenho há muito tempo tentado colocar as minhas habilidades artísticas e práticas a favor da companhia e isso é uma tarefa que aparentemente é natural, mas requer um extremo desapego ao que é MEU. Isso é meu! Essa idéia é minha! Tenho pesquisado falar no plural. Falar NOSSO! DE TODOS! DOS ARTESÃOS!

Calvino diz: que não existe linguagem sem engano, e depois que eu me detive nessa afirmação tenho refletido muito sobre os nossos processos de criação e sobre a chegada de novos intérpretes na companhia. Eu acho muito interessante a presença deles, pois eles nos questionam corporalmente, intelectualmente, nos desafiam em nossa (nesse caso falo de nós intérpretes) bravata pedagógica e se colocam como mensageiros desse “engano” nos obrigando a um posicionamento e não importa se o resultado seja a mudança ou a manutenção da nossa linha de pesquisa, mas estamos chafurdando no terreno do engano, da investigação e não na certeza vazia.  Salve Raul Seixas que dava preferência à mudança do que a estagnação.

Pesquisamos também uma maneira de construir espetáculos que transcende a lógica. E isso é ótimo!!! Todos trazem sua contribuição – uns mais, outros menos dependendo do tema... – e a costura dessa colcha de retalhos quase sempre dá um caldo especial. Digo com orgulho o “quase sempre”, pois se temos a fórmula e a certeza, não existe a pesquisa ou ela se estagnou. É claro que a Mirtes passa noites e noites pensando em um ritmo, em um encaixe que trace uma dramaturgia e uma narrativa ao espetáculo, mas em muitos casos a seqüência  impõe coisas que só o acaso e o vento ou os ETS podem explicar.

Escrevi algumas coisas há algum tempo atrás sobre alguns itens que considero que nós pesquisamos em cada espetáculo e tentei falar um pouco sobre cada idéia. Queria compartilhar com vocês...

 

 

Espasmos Urbanos:

·     o processo colaborativo

 

Falar sobre esse conceito tão “gasto”, em se tratando de arte, isso sem nem sequer traçar um paralelo com a sociedade contemporânea e sua individualidade exacerbada parece em pouco old fashioned. Mas há tempos que a valorização do intérprete-criador e a colaboração entre o coreógrafo e o bailarino/ator vêm dando novas caras para as criações. Na Cia. Artesãos do Corpo essa premissa existe desde sua criação. A diretora Mirtes Calheiros está mais no papel de uma questionadora, uma facilitadora para o movimento e para as reflexões que ela conduz com habilidade. Tirando de cada intérprete o movimento mais urgente e contundente a partir de cada tema proposto, enfatizando a personalidade/estilo e a bagagem intelectual e artística de cada um. Fazendo perguntas simples, Mirtes compõe um mosaico de cenas, movimentos, falas, textos, músicas... Uma pasta com artigos de jornais, livros, referências vai sendo abastecida por todos e que acaba por abarcar facetas diversas do universo criativo em questão e amplia o referencial de cada integrante numa espécie de dossiê plural do espetáculo a ser construído. A diversidade e a pluralidade de experiências, histórias de vida, formação, tipo físico, faz parte dessa nossa pesquisa uma vez que entendemos que todo corpo pode se expressar dançando, não no formato acadêmico ou da estética/técnica que engessa, mas no sentido de expressar o que há de belo e terrível dentro de cada ser. Laban já dizia que nossos movimentos são resultados de uma sensação interna. Laban e seu sistema democrático de entender e transmitir a dança nos serve como base e desafio, pois Mirtes sempre diz que “a expressão corporal nos deixa molengas”, e é esse desafio de experimentar em grupo uma nova maneira de dançar que não nos deixe na zona de conforto, mas que também não seja escrava de uma técnica específica.

No processo de criação de cada espetáculo nada é descartado, desde um recorte de jornal com um guia de etiqueta para elevadores, até uma imagem de uma mulher afegã, passando por uma reflexão sobre a escrita no Japão, tudo é experimentado para falar sobre um mesmo tema. A ferramenta de trabalho do bailarino é o corpo – nesse caso não estamos separando corpo e mente, é tudo junto – portanto essa experimentação se dá através do corpo. O corpo de cada intérprete está ali naquela circunstância proposta (Stanislavski) e o jogo, o conflito e a interação se dão a partir desse contato.

 

Outro aspecto importante de ressaltar é o fato de que pouquíssimas vezes uma movimentação é coreografada, e mesmo quando isso acontece, o intérprete precisa encontrar sentido para realizar determinado movimento, ou então não participa desse momento da criação. Mirtes sempre nos indaga: Como seu corpo reage a essa situação? Como fica sua respiração? O que dá vontade de fazer?

De uma forma ou de outra, cada membro da companhia contribui para a criação dos espetáculos e para desenvolvimento contínuo de nossa linguagem. Em algum trabalho ou tema de pesquisa e investigação teórica um transita melhor por esse tema e toma a frente trazendo provocações e referências para a roda e vai recebendo o retorno pessoal de cada um com suas conexões a partir da fala apresentada e esse processo de colaboração se dá em vários níveis, ou seja, um traz um texto que inspira um movimento, que puxa uma colocação filosófica, que resgata um livro, que se transforma em uma cena, que gera um artigo etc.etc.etc.

A palavra colaborar, adquire outro sentido no âmbito da dança no Brasil e principalmente em dança de pesquisa, ela ganha outras formas de acordo com os recursos financeiros e de difusão dos trabalhos e projetos das companhias. Em nosso caso, muitas vezes colaborar significa/significou “pagar” para realizar determinados trabalhos – os intérpretes pagam/pagavam sua condução e se apresentavam na expectativa de ganhar bilheteria, a produção e a direção pagam/pagavam os custos dos projetos e temporadas - e para manter o Estúdio Artesãos do Corpo – manutenção que resulta da parceria artística e afetiva de Mirtes Calheiros e Ederson Lopes que entendem amplamente o significado desse espaço. E durante esses quase nove anos de companhia os processos colaborativos são mais uma atitude e uma ideologia de vida da diretora da companhia que na sua formação em sociologia busca mais um olhar de mistura/trocas/diversidade/permeabilidade do que uma fórmula que dá certo em algumas companhias e que tentamos nos moldar. Em um festival, a pesquisadora Bete Lopes perguntou como conseguíamos essa leveza em cena? Talvez seja por tudo isso!

 

·     o corpo e os símbolos/signos

     

·     a relação corpo/cidade

 

Falar do ser sem citar o meio que ele habita é se abster de uma parcela muito significativa desse estudo. Espasmos Urbanos nasce com essas questões, qual é o corpo das grandes metrópoles? Como reage o corpo submetido ao trânsito, ao ritmo interno e externo imposto pela cidade, aos valores implícitos – competição/sucesso/produtividade? Como os nossos sentidos se adaptam e ou lutam contra a poluição visual, sonora e ambiental?

Calvino fala em “As cidades invisíveis” que não são as sete ou setenta maravilhas que lhe interessam nas cidades que o personagem Marco Polo visita, mas sim as perguntas que cada cidade faz para ele. Será que estamos prontos para responder as perguntas que São Paulo nos faz? Ou melhor será que podemos ser sinceros ao respondê-las?

O corpo/movimento/expressividade das pessoas também é influenciado por aspectos arquitetônicos, ambientais, econômicos de cada local e essa diferenciação acaba por existir dentro de uma mesma cidade, mas sempre permeada por uma característica/estigma: São Paulo é a locomotiva do Brasil!!!

Os movimentos são quebrados, descontínuos, rápidos e a respiração é sempre curta, o estresse está em cada músculo. A tensão está na face, nas veias, nas vias, nos encontros de diferentes realidades e corpos. O corpo dos Jardins é o mesmo corpo do Recanto dos Humildes? A agressividade está impregnada nas relações cotidianas e a cultura do nº 1 nos torna escravos de uma competitividade cruel e desumana uma vez que não tem lugar no topo para todos. O que o capitalismo faz com quem não alcançou a tão sonhada meta? Com os redundantes? Com os segundos lugares? Isso tudo está no corpo! Até no corpo que nega isso. Quantas vezes nos perguntamos porque estou correndo? E vale também a pergunta, o que se faz com o tempo que resta? Assistir TV é sempre a alternativa mais rápida e alienante desse cotidiano que nos torna mercadorias e estatísticas.

A insustentável leveza da competição está bem retratada na peça e podemos fazer paralelos com o corpo que observamos dia-a-dia. Corpos no chão, com as pernas e bundas para cima, corpos tentando reproduzir estratégias de outros corpos, corpos que se chocam e se auto-agridem, corpos que não respeita o outro. Qualquer semelhança com o mundo dos executivos (aqueles que executam) e também com qualquer rua/banco/supermercado não é mera coincidência.

O corpo é “amestrado” por regras. Algumas são necessárias para uma convivência organizada: faixas de pedestres, pontos de ônibus etc. Mas existem baias que interferem fortemente em nossa movimentação a mais explícita é a fila do banco, com suas setas, correntes, portas giratórias. Já vimos pessoas que mesmo sozinha no banco repetem o mesmo trajeto para efetuar suas obrigações com o sistema financeiro. Existe também o corpo que é obrigado a dividir o mesmo espaço com outro corpo: transporte coletivo e também pessoas que se duplicam e com suas mochilas ocupam espaço de dois corpos e se movimentam dentro desse espaço já restrito com o seu duplo.

a movimentação lenta – desindividualização do intérprete / movimento essencial

 

O início da pesquisa para a criação de Espasmos Urbanos foi feita na rua. A companhia ia para Av. Paulista e propúnhamos uma alteração de velocidade ao ritmo proposto pela cidade, ou seja, andávamos bem devagar  em slow. Falaremos mais sobre essa relação rápido/lento quando falarmos sobre a instalação coreográfica “Olhar Urbano”.

O teatro e a dança oriental, principalmente o teatro nô e o butô trabalham com essa inversão de tempo no palco e buscamos nos afastar da facilidade e da superficialidade da repetição da forma e encontrar um sentido no próprio corpo e na relação de cada intérprete com o espaço. Nossa intenção era ir ao encontro do o movimento essencial, um movimento que dialoga com a respiração (interno) e com o ar/vento (externo) um corpo presente e consciente de seus movimentos e também de suas sensações. Sentir o toque dos metatarsos e dos calcanhares no chão e a partir desse sutil contato do corpo com o solo, caminhar. Parece simples. Mas não é. Até atingirmos um estágio de concentração, consciência e um estado de atuação/cena foi um trabalho muito grande, pois o corpo todo tem que se movimentar respeitando uma harmonia e um ritmo muito lento e ainda não entrar em um estado de “viagem”, manter a atenção ao movimento dos outros intérpretes e uma relação verdadeira com os aspectos físico, climáticos, sensoriais do espaço.

Trabalhar a neutralidade do rosto, deixar que o corpo e os movimentos contem a história, uma máscara neutra, a famosa “cara de nada”. Excessivamente treinamos essa movimentação e definimos essa experimentação cênica como um treinamento corporal da companhia.

 

·     a rua como inspiração e treinamento

·     eixo – respiração – espacialidade

·     criação em ato/improvisação

·     ruptura da estrutura palco-platéia

·     o corpo como elemento performático

·     dramaturgia do corpo

·     física-quântica – teoria dos sistemas

 

Mrykaok – um relato da infância através do corpo

·     memórias do corpo / corpo idílico

·     o corpo como depoimento pessoal

·     a universalização de temas a partir da experiência de cada intérprete

·     o sócio-construtivismo (Piaget) na criação e na direção dos espetáculos

·     arte-educação e o não saber

·     dança-psicologia

·     dança – antropologia

·     a construção coreográfica

 

Valparaíso

·     artes plásticas e dança

·     verticalização dos temas: improvisação e performance

·     surrealismo e o corpo

·     ação real e fictícia

·     romper aparências do corpo

·     o texto criando outros significados para o movimento

·     a relação do corpo com o belo

·     linhas e movimentos das artes plásticas e a dança

 

Pequeno espaço para ser eu mesmo

·     o corpo fragmentado

·     a Escala Dimensional de Laban

·     pesquisa do corpo e do movimento oriental (butô / Nô/ do-ho)

·     relações do butô com o Jondo flamenco

·     movimentação em espaços (físicos e psicológicos) reduzidos

·     reflexos das grandes tragédias no corpo e no imaginário

 

 

Estudos sobre o desejo                                                                                                    

·     teatralidade dos movimentos

·     o conflito a partir da relação entre os corpos desejantes

·     dramaturgia fragmentada

·     o corpo transgressor-além do gênero masculino-feminino

·     medos e desejos do corpo

 

 

Instalação coreográfica: Olhar Urbano

·     transgressão do tempo-ritmo urbano

·     assumindo riscos/corpo e arquitetura

·     ressignificação do patrimônio histórico

·     a relação movimento-cidade

·     os efeitos da dança na rua

·     estudos sobre o que é uma platéia

·     investigação da idéia de processo e presença

 

Formas que o acaso e o vento dão às nuvens

·     interfaces: dança e literatura

·     Calvino e as cidades: transformar metáforas em imagens e movimentos

·     novas formas de dançar na rua e mobilizar platéias

·     o cenário urbano como estímulo ao movimento

·     o corpo e o vento (interno-externo)

 

Esquina

·     a relação do corpo com a cenografia – fisicalidade

·     histórias em quadrinho – resgate do teatro na janela

·     pesquisa das articulações: esquinas do corpo

·     corpo como metáfora: cultura/memória/sonhos

 

  

Duas mulheres com sombrinhas brancas
no lugar da fábrica de explosivos

 

·     continuidade da pesquisa do livro “As cidades invisíveis”de Ítalo Calvino;

·     trazer para o corpo os conceitos: construção/revitalização/demolição;

·     laboratório corporal e registro (foto e vídeo) em locações relacionadas ao tema trabalhado (espaços públicos deteriorados, casas em processo de demolição);

·     os corpos-cidade de cada intérprete;

·     o corpo que conta histórias – viagens e depoimentos;

·     o universo simbólico e fantástico traduzidos em cenas;

·     pesquisa de katas, relacionados a cultura oriental, e sua reverberação no corpo brasileiro.

·     Dança e vídeo – pesquisa de projeção de imagens

  

Felipe comenta

Laban é método?

Ser artista torna a pessoa melhor? Não creio que estejamos no time que crê no ator santo, mas quando se é CRIADOR e não mero seguidor, quando se tem um trabalho CONTÍNUO e em EQUIPE, se torna uma contingência; se não nos tornarmos melhores, no mínimo somos constantemente colocados de frente com escolhas conscientes entre nos tornarmos melhores ou não.

Laban diz que movimento é resultado da sensação interna. Não gosto de traçar uma linha de causa e efeito tão simples. Stan já usava o caminho contrário, fazendo o corpo recobrar ou criar a sensação. E muitas vezes, nos vários campos de conhecimento, o que se descreve como causa e efeito é na verdade coisas concomitantes acontecendo em ‘planos’ diferentes.

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IV

O que se repete tanto como norma e como desordem na história da companhia? O que faltou falar nesses encontros que não está na roda de discussão? O que estamos pesquisando? O que estamos fazendo?

Por Gisele Ross

Bem, são quase dez anos e agora é hora de parar e lembrar... o que eu estou fazendo ou o que fiz todo esse tempo? ...engraçado perceber que só agora que quase se completa uma década que realmente me senti tocada a pensar no assunto...talvez seja reflexão gestacional ou talvez a natureza queira cumprir um novo movimento deste ciclo.

Viajar / Cantar música brega

Rir / Dançar / Chorar                                                                         

Armar  / Desarmar/ Guardar

Limpar / Ler / Brigar

Continuar / Reparar / Respirar

Comer / Abraçar / Engravidar...

 

Coisas que se repetiram...

Fui puxando o filme dos primórdios até hoje e esbarrei em muitas vezes nessas. Agora temos uma grande história. Pude ver isso acontecendo por que fui ficando, permaneci, permanecemos.  E por quê? Só consigo lembrar que as coisas sempre tiveram sentido mesmo sem entender tudo.

 

Não sei, só com a cabeça, como as coisas chegaram a ser o que são... Praticamos a experiência da permanência, e que nem sempre tem um final feliz. Acredito que sobrevivemos ao 'descobrir' a maleabilidade sutil das relações que duram...como o único fio do bicho da seda...estamos nos transformando em seda...

 

Mantivemos-nos em movimento, ninguém ficou parado, mesmo que um tenha empurrado o outro, mover e permitir que nos movessem foi igualmente importante para que esse maior existisse.

 

Fui seguindo um fio que me levou por vários outros infinitos, e quando cheguei ao Tao encontrei algo muito parecido ao que vivemos e que ajuda a me manter desperta. Só vou citar o pedacinho de um livro que resume um tanto do que penso-sinto: "O Tao deve ser vivido; relembrando que, entre quem se dispõe a caminhar e o caminho, existe o ato de caminhar, a Realização, que se dá através de um método, uma forma, uma arte.

Como o Tao está em toda parte, em todas as questões ou na ausência delas, então todas as artes tem um Tao. A palavra japonesa para Tao é Do, como em Judô. No Japão, como herança da cultura chinesa, os nomes de muitas artes recebem o sufixo Do, indicativo de caminho, cujo ideograma é o mesmo, só diferindo a pronúncia. Judô é traduzido literalmente como 'caminho da suavidade'. O japonês chama a caligrafia oriental de Shodo, que significa, literalmente, 'caminho da escrita'. A arte do espadachim se chama Kendo, 'caminho da espada'... Assim, esses conceitos derivam do Taoísmo. Todas as expressões artísticas são meios para a realização espiritual; portanto, podemos nos realizar espiritualmente através da pintura da música, da escultura, da caligrafia artística, da arte marcial... Existe caminho - arte - de construir, existe caminho de demolir, caminho de confeccionar... Todas as formas de viver são caminhos."

Realizamos muitas coisas e nos mantivemos no caminho. De certa forma fomos todos realizadores. REALIZAR. É uma bela palavra pra nós, um feito grandioso.

Olha o que encontrei no dicionário:

 

Realizar: [De real3 + -izar.] Verbo transitivo direto. 1.Tornar real, efetivo, existente: realizar um ideal.  2.Pôr em prática; efetuar: realizar um projeto. 3.Transformar em dinheiro ou valor monetário: A firma precisou realizar uma soma avultada. 4.Fazer, constituir, criar, acumular: “Os mais ricos, os que realizam colossais fortunas nas colônias ou no alto comércio das praças de Roterdã ou de Amsterdã, estabelecem o seu pé de castelo nas cidades de luxo, na Haia ou em Arnhem.” (Ramalho Ortigão, A Holanda, p. 135.) 5.Angl.Perceber como realidade. 6.Lus. Cin. Dirigir (um filme).
Verbo pronominal. 7.Cumprir-se, efetivar-se, efetuar-se, verificar-se: A previsão realizou-se; “Os seus receios haviam-se realizado.” (Rebelo da Silva, Contos e Lendas,p. 180). 8.Ocorrer, acontecer, efetuar-se,dar-se: “Um colóquio a dois, nos parques, realiza-se geralmente entre pessoas de sexos diferentes.” (Costa Rego, Águas Passadas, p. 385.)9.Bras. Alcançar seu objetivo ou ideal: Sonhava ser escritor, e o é: realizou-se. [Pret. imperf. ind.: realizava, .... realizáveis, realizavam. Cf. realizáveis, pl. de realizável.]

 

Não queria ficar o tempo todo relacionando as coisas com taoísmo ou medicina chinesa mas no momento estou impregnada disso tudo...é como se nos momentos mais inusitados eu fosse preenchida pela sensação de que descobri algo maravilhoso e que preciso dividir com as pessoas que convivo....

O lance é que a mesma coisa vai do abstrato ao concreto, ou, como um parente desconhecido definiria melhor o Qi: "A energia e a matéria são a manifestação contínua de um aspecto" Jemery Ross.

Quando iniciei minha 'pesquisa' no fim do ano sobre as correlações e dinâmica do elemento madeira na medicina chinesa, não imaginava que fosse chegar tão perto do que fazemos. O termo árvore - madeira, em chinês é Mu, que também significa caixão. Significa romper (abrir caminho, manifestar-se) com os corpos; como também o faz o vegetal que nasce após romper a superfície alcançando a luz solar (Orley Dulcetti Junior, 2001).

Existe uma história bem grande de relações com o que fazemos...será mais um ângulo de visão. Pra quem quiser ler minha monografia posso mandar por e-mail e pra quem preferir ler no papel irei imprimir dentro de alguns dias.

Estamos juntos e isso pra mim é pesquisar. Temos objetivos e coisas para por em prática e pra mim é pesquisar. Tentamos todo dia e isso também é pesquisa. Temos desejos e isso é pesquisa...isso vai acabar muito parecido com o que o Toshi Tanaka diria...

No início pensei que esses encontros seriam para falar dos homens que o Diogo e o Felipe falam....mas depois foi sendo como uma conversa sincera de casal que começa a lembrar de coisas que aconteceram e tentam superar e transformar as diferenças para continuar....e achei maravilhoso!

Estou meio sem computador...e talvez não tenha sido tão objetiva na resposta....continuarei respondendo...

Abaixo estão alguns símbolos em chinês de que falamos em português..

24605

 

 CORAÇÃO (parte da composição acima)

 

 

CORAGEM

 

 VENTO

  

QI

           

Percebam a repetição do segundo ideograma presente nas três palavras: coragem, vento e Qi.

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Minha cabeça vem de fora como vocês sabem.

Por Diogo Soares

Não posso sequer relacionar com a bagagem de discussões que tiveram desde os primeiros encontros e formação da Cia como existe hoje.
A gênese da Cia já é um baita arcabouço teórico para que as hipóteses venham emergir nas práticas e apresentações. A questão acadêmica é simples. Pesquisa é: Uma investigação sistemática designada a produzir conhecimentos generalizáveis.
Então a criação da Cia é uma crítica e uma proposta ao mesmo tempo.

A pesquisa é (deveria) uma tentativa de fundamentar a proposta e também generalizar no sentido de expandir para campos não imaginados de início.
Hoje em dia, no universo acadêmico, as pesquisas funcionam correlacionando teorias já "provadas", na maior parte dos casos é claro. Acho que é o caso da Cia tb.

Como relacionar as diversas visões, técnicas e práticas que nasceram separadas e nossa mente globalizada nos faz pensar em conjunto?
No exato momento de fazer a análise dessas relações é que aparece o momento crucial de descobrir não o que une, mas sim a contradição. Delimitar o objeto de estudo é manter de fora aquilo que irá transformar o seu trabalho num frankenstein.
 

A pesquisa vem para isso: afinal de contas o que é que estamos fazendo que prova que a nossa hipótese está correta e o que coloca ela em xeque? Se coloca em xeque, como podemos agregar este novo dado afim de não comprometer a teoria como um todo e propor exceções e casos especiais? Contextualizar a nossa pesquisa com outras é importante.

Não existe somente propostas que encaram a pesquisa como utilidade econômica (como conseguir mais público, como aparecer mais na TV, como conseguir mais dinheiro etc), mas tem gente muito séria disposta a morrer por uma teoria... mesmo que monopolizando de maneira mafiosa os centros acadêmicos.... enfim há propostas honestas por aí... que devem ser colocadas em comparação. Quais os prós e contras.

Sei que fui abstrato demais, até pq acho q falei mais da minha vida acadêmica do que da própria vida da Cia. Acho q vale a pena ter isso na cabeça... ou não...

Bom, é aí que a porca torce o rabo dentro da academia. Pq é fácil  descobrir o quão longe está a hipótese de sua constatação dentro da realidade. Isso provavelmente só acontece mesmo dentro da filosofia, que inadvertidamente pega objetos que não fazem parte do seu universo e viajam literalmente dentro deles.

Nas ciências "duras" o buraco é mais embaixo. Durante a pesquisa a hipótese é apenas uma guia inicial, mas se o cara ficar preso nisso ele trava. A partir desta guia o pesquisador se envolve de uma outra maneira com a realidade do seu objeto e se descobre, ao mesmo tempo que vê em suas descobertas que não sabia nada.
Por isso o caminho inverso é mais fácil de encontrar na literatura científica. O cara encontra uma anomalia, uma "coisa" que foge da regra, e tenta encaixar nos sistemas dados previamente. Caso não consiga, cria um sistema de classificação novo. É o famoso caso do Fleming e a penicilina..... as constatações são mais fortes que as hipóteses.

Como eu disse no primeiro mail, acho q realmente entrei no assunto de um ponto de vista tão específico que ficou difícil de debater. Não consigo mais dissociar a palavra "pesquisa" desta fase universitária.

O que realmente estamos falando são as EXPERIÊNCIAS e EXPERIMENTOS da Companhia. Não é? Quais as limitações do arcabouço literário tem ajudado? Tem distraído? a preparação do espaço e do corpo deve ser essa.. isto é, qual o ecossistema que auxiliaria um processo de aprendizagem mais bacana.... não no sentido de ser mais fácil, mas no sentido de ser mais profundo, de reverter mais reflexões e ações.

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Eu e a pesquisa!

Por Diogo Soares

Não tenho falado muito sobre o "eu" pq não quero extrapolar a fronteira: conversar sobre as efemérides X começar uma terapia.

A Cia. tem sido uma grande oportunidade de falar sobre as coisas que estou aprendendo na faculdade. Existe um limite para a aplicação, mas traçar paralelos é sempre bacana. Tenho certeza que ainda não consegui digerir esses conhecimentos e ainda saem travados da minha boca quando tento explicá-los.
 

O meu cotidiano não tem sido muito relaxante. Admito que não me sinto confortável neste trampo de manhã. A faculdade me cobra um tempo que infelizmente não estou tendo. E minha casa não é exemplo de lugar sossegado.
 

Mas afinal, sou só eu ou isto que falei encaixa perfeitamente no perfil de todos nós da Cia? Guardadas particularidades ok? Não curto muito ficar falando pois fica parecendo que não respeito as diversas dificuldades que todos os outros passam. Reclamando de barriga cheia como se diz né hehehe. Recebo os dizeres da Mirtes de maneiras diferentes.  Me questiono sobre essa gangorra. E sobre me acalmar.
Concordo que me empolgo bastante, sou enfático, me interesso, quero participar. Esse jeito de estar sempre vi como positivo. Me sinto confortável ao ser atencioso e comprometido.

Isso gera indisposição é óbvio hehe afinal sempre fui taxado de "cri-cri", normalmente sou visto como certinho, bonzinho, rapaz de família, essas coisas. Ao mesmo tempo que já ouvi críticas de que eu fico muito nervoso, irritado ao discutir sobre um assunto. É a mesma empolgação sobre o disco do Portishead... é um jeito de falar, de convencer, de agir... esse sou eu hehehe . Então, eu fico triste sim. Mas não é toda vez que estou calado é pq estou triste. Durante as apresentações no Itália eu tava pressionado de diversas maneiras, muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo e que não quero falar... naquele momento estava triste... mas não agora.

A minha parte calada aparece tb quando vem à tona uma consciência sobre o meu próprio comportamento empolgado. Tenho tentado ouvir mais, e é isso que tenho tentado exteriorizar quando peço para que todos escrevam.
É minha forma de dizer, me segurem  hehehe pq senão eu apareço como um tanque de guerra... Então é isso que entendo por me acalmar.

Não quero tirar o foco, nem deturpar ou retirar espaço de ninguém... às vezes meu discurso é tão enfático que parece não haver saída fora daquilo... que ninguém está mais certo e que sou turrão.

Nada mais errado! meu espírito está preparado para tomar invertidas, patadas e tundas quando se trata de debater idéias. É assim que tenho aprendido. Sempre colocar à prova os conhecimentos. Meu comportamento externo não exprime minhas emoções. (sei q essa frase será debatida até o final dos tempos, mas é para provocar mesmo). A coisa é mais complexa internamente. Tá, tô sendo platonista... whatever.... o corpo é um limite, ele é o engano tb...

Não gosto de me pensar como um ser único. Mas gosto de pensar (citando o Fê) que alucino o mundo. Mas tudo bem, mais calma com a alucinação.

 

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VI

Arte não é O QUE se faz, mas COMO se faz.

Por Ken Kronaz

Não importa se o Jogador coloca os pés atrás da nuca ou se dá dez piruetas, o que importa é a qualidade que ele imprime, o estilo, a capacidade de tocar as pessoas da platéia para além de um "nossa, como ela consegue?", a consciência de todos outros elementos em jogo e o domínio de como colocar suas piruetas nessa teia de 'informações' transmitidas/recebidas. Bem, acho todos nós falamos isso de uma maneira, e a conversa com a Isabel Marques veio confirmar isso.

Todavia, há algumas semanas me dei conta. Essa definição de arte é a mesma definição de Técnica. Técnica é, por definição, um COMO fazer, uma descrição de procedimentos, para se chegar a um resultado, que pedem mais ou menos treinamento. Isso me pareceu, inicialmente meio frustrante. Quero dizer, como se antes de certa reflexão eu simplesmente colocasse arte e técnica em campos distintos. Acho que no Prado vi uma obra renascentista quase que hiperrealista, e foi dito que tal pintor (quem se lembra? Nem eu que estive lá, e isso é parte da minha argumentação) mantinha sua técnica em segredo, tinha seu poucos e fidelíssimos acólitos que provavelmente pintavam mais que o pintor-mestre a assinar todas obras. No mais, lembramos mais de Da Vinci, Velásquez, Boticcelli etc. A perfeição técnica que não dialoga com a tradição, que não propõe uma voz nova, que se mantém por meio de esconder a luz sob o alqueire, que representa objetos exteriores mas não representa mais nada, nem a época, nem o artista, nem uma idéia.

Fernando Pessoa escreve a certa altura 'Só sou técnico dentro da técnica', e até hoje não decifrei direito isso. Será que tudo se resolve se propormos que técnica é um COMO fazer elementos da linguagem trabalhada, e arte é um saber usar isso? E saber não é passar num teste, ou seja, seguir códigos estabelecidos, mas um querer fazer o que está sendo feito e fazer o que se pretende, a consciência do Jogador-observador?

Não sei articular ainda, mas tudo me parece parte de uma discussão maior de outras dicotomias como entre forma e conteúdo, cérebro e mente, entranhas e paixão, coreologia e coreografia. Ou seja, melhor não olhar muito de perto ou vamos pirar ao descobrir que não há limite entre os dois elementos. Socraticamente, conversando o bastante sobre algo, descobrimos que não sabemos nada.

Aliás, outra coisa que me intriga é que para Platão o mundo das idéias é habitado pelas formas. Em grego, IDEA quer dizer FORMA. Que ótimo! Agora alguém pode me dizer desde quando e COMO Idéia e Forma passaram a ser opostos?

Efemérides: li na Wikipedia que Laban era integrante de uma 'facção' maçônica cujo grão-mestre já foi Alistair Crowley! Uau! Alguém já detectou propensões esotéricas nos escritos do húngaro? Se bem que existe cabalismo em Newton e Einstein. Talvez só o fato de ver o mundo de modo tão aberto e abrangente já seja sinal de esoterismo.

Pergunta: todo mundo via Laban como EMOCIONAL? Isso me surpreendeu, pois para mim (ou eu) que só conheço, de falar, das categorias de esforços, da notação e da kinesfera, tudo me parece bem analítico e racional. Será que não é tendenciosidade de interpretação, do mesmo jeito que o mundo faz com Piaget? Educador no Brasil adora construtivismo mas odeia ou nem sabe o que é Epistemologia Genética.

De certa forma minhas questões na arte não são tão diferentes das de todo mundo. Todo mundo pensando numa via mais oriental e eu me sentia meio de fora dessa viagem. Eu me preocupo mais com a questão da linguagem, com a semiótica da coisa. Darei dois exemplos de questões que me tomam os neurônios de vez em quando.

Um: não gosto do termo expressão corporal. Não gosto da palavra expressão. O jogador tem algo dentro que põe pra fora? A imagem do artista sofrido que grita ao mundo sua dor? Poupe-me. Talvez comunicação corporal. Não, aí teríamos que incluir coisas como a mímica das aeromoças. Expressão soa como obra de arte com Mensagem. E aí o jogador fica puto e amaldiçoa a platéia quando não é compreendido. Aí sente mais dor, que gritar ao mundo de novo e círculo vicioso.

Pra mim, o problema é que isso ainda está em Saussurre (acho), ver as coisas como dicotomia entre representando e representado, ou o visível que é usado para representar o invisível. Aí entra Peirce (palmas!) e diz que trata-se de uma TRIcotomia, e coloca  o PARA QUEM isso é representado, a mente leitora. Do artista sofredor, ele poderia dizer "com base em que um poeta esloveno se enraivece diante do americano que não entende sua língua?". E para completar a receita, um pouco de Wittgeinstein: a linguagem são combinados que se adaptam a cada circunstância. Abaixo a gramática normativa!

 

Falei DOIS exemplos? Como sempre, é um só. Conseqüência daquele. Por que agora temos que perguntar nesse ponto: e o Quico? O que isso traz para minha arte (é minha vi primeiro ninguém tasca)? Ainda não estou nem um pouco firme, mas tendo a achar que talvez pode ser que exista a potencialidade de um hipótese... brincadeira! Acho que temos que nos esvair de intenções. Não quero passar mensagens. Não acredito que exista um ser invisível que precise ser pintado de azul para que você veja que ele existe e qual a sua forma. Diante da consciência que tradução é traição, de que cada decodificação é uma distorção, de que em arte não existe aquele pré-combinado de linguagem para que possamos nos comunicar. Temos que fazer algo como dialogar não apenas com a tradição, os contemporâneos etc mas também com a própria linguagem, brincar, saber que toda obra é aberta, não dizer APRENDA, mas dizer OLHA QUE LEGAL. Os únicos problemas do que falei é que me incomoda muito conjugar o verbo TER QUE, definir o que quero pela negativa, e como brincar com a linguagem sem cair no mero trocadilho.

Passar bem

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VII

O Caso da Balança

Por Diogo Soares


Então fui direto para o Boi (boooooiii!!!) êêê Boiiiii foi lindoooo, o começo chuvoso contrastou com o final bem alegre e sequinho sequinho!!! Muitos amigos encontrei! Inclusive sabem quem!?!?!?!?!?!?!?!??! quem?!!?!? a mulher da caverna!!! saíram do SESC e caíram no Boi do Querosene! hehehe conheci os músicos da banda e tudo! muito chique!!!!

Acabou cedo, bati a cabeça no travesseiro e dormi com o dever cumprido! acordei faz pouco tempo, mas sabe quando dá aquela sensação de trabalho realizado? Dançar na chuva é revigorante.

Sobre o processo de pesquisa e apresentação. Retornamos ao assunto de uma maneira diferente. Mais prática.

A criação do Duas Mulheres foi feita à partir de cenas já previamente prontas e depois encaixadas com cenas criadas com base nas perguntas propostas pela Mirtes. Foi crescendo a idéia dos objetos serem colocados e deixados durante uma parte do espetáculo, e alguns desses acabaram ficando fixos durante todo o tempo.
Refletindo sobre a parte prática somente, acho que o olhar em perspectiva do palco é necessário. Ver o ensaio da platéia, de um lugar distanciado, com aquele olhar do todo espaço/tempo. Quando se faz isso? Bom, acredito que no caso do "teatrão" isso deve acontecer rotineiramente, de maneira controlada e tal. Acho eu que o 2Mulheres passará esta experiência de alterações durante as apresentações, refletindo sobre a própria prática e novas descobertas que somente a ação pode dar. Até pq as limitações que as luzes nos impõem são também motivo para adequar os objetos em cena, e dependem da experiência para que esta afinação exista.

Sem querer viajar muito (pq havia escrito quase uma tese sobre a balança numa versão anterior deste mail). A perspectiva tem q ser realmente a dos objetos antigos contrastando com os novos. A balança pelo que vejo é um exemplo perfeito, caiu do céu. Não é um instrumento nada novo, tem 7 mil anos de idade, provavelmente deve ter sido criada nas experiências das primeiras trocas simples de objetos dentro das comunidades. Mas isso contrasta demais com os nossos tempos, onde tudo tem que ser high-tech, modernoso e avançado. É a idéia do progresso novamente, não construiu nada (muito pelo contrário) e recebe o status de milagre feito pelos homens. A única verdadeira mudança feita mesmo é tornar o Homem seu próprio Deus. reitera a idéia de viver apartado da Natureza. A balança não mudou nada, mas fingimos que foi inventada 20 anos atrás por um cientista japonês doido por robótica!


A idéia da balança nas mãos da Têmis é que ela pesaria os prós e contras do caso em questão, um equilíbrio entre as duas partes conflitantes, e como é essencialmente racional usa a espada para decidir vendada. Isso contrasta novamente com a questão do progresso. Afinal, será que não percebemos que pode existir o máximo de tecnologia, reengenharia, e outros badulaques que não resolverá o problema da existência humana? Então pq almejar algo que resvala em nosso problema?


Mas fica sempre a idéia (voltando aos parágrafos anteriores) que a balança melhorou, está ultra-moderna e com isso consegue julgar os pesos e as consciências de melhor maneira que 7 mil anos atrás. Somos escravos das máquinas. Pobre do homem que acha a Justiça presa numa balança...


Já perceberam que as balanças atuais não tem dois pratos? O outro foi subtraído quando a eletrônica implantou internamente a calculadora monetária... será que nossos tribunais não exibem a mesma relação com esta modernidade? Um prato fica o objeto e no outro somente o dinheiro..... nunca se comparam outros tipos de coisa...

 

Felipe acrescenta:

voltando a umas idéias da gi, depois de ler esse email do Diogo, penso que a balança de dois pratos é mais sincera, pois admite que conceitos só existem por comparação, enquanto uma eletrônica finge estabelecer um valor absoluto, apesar de o metro de paris estar encolhendo e ninguém saber quanto vale um segundo e nem cientistas conseguirem definir massa...

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VIII

Elogio ao silêncio

Por Mirtes Calheiros

Embora saibamos que as palavras não dão conta das inúmeras realidades que vivemos na companhia, considero que escrever é um exercício necessário.

Os relatos escritos revelam outras camadas do múltiplo ser que cada um manifesta. Temos textos plenos de afeto e que enumeram elementos intimamente ligados à nossa prática, outros onde prevalecem as citações e conexões com grandes pensadores, muitas vezes longe de nosso repertório de conhecimento que precisam ser relacionados à  exemplos práticos  para que não nos distanciemos daquilo que queremos aprender.

Lembro da filósofa/poeta que tantas vezes conversou conosco: Bete Cunha! Suas palestras são repletas de emoção, suas falas são inesquecíveis, pois as idéias filosóficas vêem recheadas com exemplos concretos e ilustradas com pinturas como as de Volpi, fotos e músicas. Todos os conceitos fazem um enorme sentido. Outro dia ouvi Adélia Prado alinhavando idéias e conceitos de maneira muito semelhante a Bete Cunha! Inclusive, Adélia Prado também é da opinião de que não há como falar sobre processos criativos, sobre a arte. Apenas experenciá-los.

Não tivemos tempo para nos dedicarmos como gostaríamos ao Lévi Strauss que foi muito citado, bem como a todos os outros autores, o que não significa que com mais tempo, não faríamos ligações maravilhosas com nossa prática e nosso cotidiano.

Ao terminar de compilar todos esses escritos tive a satisfação de ser a primeira a ler e constatar a qualidade do material que a Cia é capaz de produzir! Que terreno fértil é o nosso. Quantas possibilidades.

Cada texto aqui apresentado é precioso. O relato da Gisele trás algo importante ao destacar um percurso (o DO) e apontar para o futuro, uma vez que a grande pesquisa é viver o caminho. Essa idéia precisa ser retomada e reforçada na companhia.

Felipe e Diogo puderam constatar que as citações e o conhecimento precisam ser colocados de tal forma que todos queiram ouvir e acessar esse arcabouço teórico identificando-o ou não com nossa prática. O conhecimento socializado na companhia. Saíram por momentos da solidão que todo esse conhecimento necessita para ser digerido e obrigou-os a confrontá-lo com a agitação das reuniões da Cia.

Ederson ordenou o conhecimento adquirido e desejado em cada criação da companhia, nos dando um panorama maravilhoso de todo trabalho realizado até então.

Andrea, Elder e Bárbara  caminharam em busca de uma maneira de expressar por escrito seus questionamentos e fizeram esforços, assim como eu, para entender todos os temas e autores tão apropriadamente citados.

Ficou claro o valor do esforço de todos... Vamos fazer grandes lanches e cafés e chás para nos deleitarmos com assuntos como esses que vocês todos trouxeram. Seria uma forma de dar continuidade a essas conversas sem assustar ninguém. Quem não quer falar que ouça para aprender e quem sabe que aprenda a falar/escrever para quem está ouvindo.

Alguns questionamentos me ajudaram a pensar nas palavras que ficamos repetindo mas não praticando. Felipe unindo o zen e a nossa prática, aponta com enorme clareza algumas falhas do nosso discurso.

Em tudo isso, chama a atenção que essa grande rodada de conversas e reflexões aconteceu sem que tivessem envolvidos fator monetário, ou seja, não houve remuneração para essa produção. Demandou gastos e tempo de todos, mas mesmo assim, levamos adiante. Longe de ser um mérito, mas sim indicar a tremenda tragédia em que nosso país está mergulhado, nos faz recusar atrelar a continuidade de nossos estudos à aprovação de editais públicos. Por isso tenho dedicado um bom tempo de minhas noites de frio para pensar em como sair dessa roda comezinha de editais mixurucas para irmos em direção a uma condição digna de remuneração. 

Me sinto honrada por ter pessoas como vocês perto de mim. Às vezes tenho vontade de mostrar pra todo mundo do que vcs são capazes: olha só o que eles escrevem!!!. Mas prefiro praticar o elogio ao silêncio! Psiuuu.

Aqui fica minha admiração por todos e meu amor ao que temos realizado em todos esses 10 anos de convivência.

Muito obrigada

Mirtes



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