IV VISÕES
URBANAS - reflexões e continuidade
A IV Edição do
Festival Visões Urbanas findou num sábado de outono e ainda ecoa pelo
centro de São Paulo. A edição de 2009 concentrou 15 apresentações
artísticas e um bate papo com pesquisadoras e criadoras fundamentadas no
bailarino e arquiteto Rudolf Laban. O Pateo do Colégio, lugar
privilegiado da cidade por seu fácil acesso, por ser um marco histórico
(local da fundação de São Paulo), possuir um chão bem cuidado e propicio
ao movimento, possibilitar visão ampla e de vários ângulos à platéia
(colaborando com uma das características do Festival em não ter palcos
formais) e finalmente, possuir suporte para segurança do público e
artistas, confirmou ser um cenário perfeito para as apresentações.
As imagens (fotos e
vídeo) falarão mais que as palavras, momentos poéticos e intensos que
ficarão na memória dos que saíram de suas casas ou por um acaso cruzaram
aquele quarteirão entre os dias 20 a 23 de maio. O interesse acerca do
festival por uma mídia viciada em tragédia, foi surpreendente. Tivemos
cobertura total da mídia impressa, digital e televisiva.
O festival uniu
mais uma vez os participantes, através de uma programação que facilitou
o convívio e o contato entre eles e com a cidade. Essa troca é afetiva,
artística e lança amizades e contatos futuros. Assim tivemos Portugal,
Espanha, Cuba e Argentina, bem como o estado de Alagoas, Rio de Janeiro,
Minas Gerais, Salvador e São Paulo falando a mesma língua – a linguagem
da dança.
O que tenho a
agradecer é o empenho, principalmente dos grupos que vieram de outras
cidades e países, em participar do festival. Graças a essa imensa
vontade que eles puderam estar aqui conosco e trazer suas criações para
a cidade de São Paulo.
Foram quatro dias
de intensa movimentação, com uma programação que privilegiou a
diversidade estética e as diferentes formas de interação com a platéia e
com a paisagem urbana.
Aos que ainda não
conseguiram enxergar a importância do Festival Visões Urbanas a IV
Edição marcou definitivamente o calendário da cidade – é o único
festival com essas características que ocorre na maior cidade da América
Latina, acolhendo um número incrível de público diariamente, contando
com a simpatia imediata dos que por ali passam. Une e movimenta grupos
de dança do país inteiro (recebemos propostas, além dos estados
contemplados na programação, da Bahia, Amazonas, Rio Grande do Sul,
Paraná) e já recebemos inúmeros pedidos de companhias e criadores da
Europa (França, Bélgica, Alemanha, Espanha, Itália) comprometidos com a
próxima edição que acontecerá em abril de 2010.
Em se tratando de
um país como o Brasil que possui dimensões continentais, o fato de
recebermos trabalhos e artistas que desenvolvem sua pesquisa no norte e
nordeste do país facilita a circulação de idéias e o encontro entre
todos, nos permitindo olhar para outros estados fora do eixo
sul-sudeste, além de incentivar a continuidade dos trabalhos sabendo que
existe um espaço para sua circulação e difusão.
Ainda sob a emoção
da semana que acolheu 15 companhias de dança, arrisco uma análise do IV
Festival Visões Urbanas, me permitindo desvios para falar das outras
edições, pois é nesse processo continuo de aprendizado que caminhamos.
Difícil buscar uma
regularidade de acontecimentos desde o primeiro Visões Urbanas tal a
complexidade e singularidade que permeia cada um deles.
Ao contrário do que
se espera de um encontro que supostamente deverá ocorrer anualmente,
onde o aperfeiçoamento se dá pela reflexão de experiências vividas
algumas bem vindas e outras que seguramente buscaremos evitar, isso não
ocorre plenamente tamanha a diversidade de uma edição para o outra, seja
em termos do montante dos apoios ou a total falta deles (como foi o caso
da II edição), seja pela dificuldade que os grupos encontram em
conseguir apoios para viagem.
O IV Festival
Visões Urbanas que acaba de acontecer, caminhou para algo que
consideramos de suprema importância: o congraçamento entre os
participantes que vieram de outras cidades, tornando o encontro
verdadeiro e a troca artística efetiva. Por outro lado, nos chamou a
atenção o fato da maioria das companhias de São Paulo, com raras
exceções, estarem ausentes nas apresentações de outros grupos e se
mostraram menos afeitas a esse tipo de troca. Ausentes também ao
Encontro Mulheres de Laban, onde acreditamos que teriam muito a
aprender, a trocar, a provocar, colaborar e enriquecer o debate. Sem a
presença maciça de todos o festival perde sua força e criamos uma
relação de contratante e contratado, imagem que não queremos vincular ao
festival. Tanto eu, Mirtes, como Éderson, somos artistas, antes de
programadores, e são as dimensões artísticas e humanas que nos
interessam com essa iniciativa que já dura quatro anos.
Outro aspecto que
merece reflexão são as dinâmicas adotadas pelos apoiadores onde durante
todo o processo de negociação, fazem exigências burocráticas, resultando
em uma enorme perda de tempo e desperdício de verba, uma vez que
providências precisam ser tomadas para que o festival ocorra da maneira
como foi pensado e aprovado pelos mesmos que parecem não compreender a
especificidade de cada projeto.
Em diferentes
escalas todos os apoiadores “oficiais” seguem a mesma dinâmica. O PROAC
e a Secretaria do Estado da Cultura nos deram relativa liberdade no
gerenciamento artístico, mas corta verba preciosa, além de dividir o
orçamento em quotas que muitas vezes engessam inúmeras iniciativas. Não
podemos negar que os patrocinadores/apoiadores são essenciais para a
realização do festival, e esperamos contar com todos novamente para a
próxima edição, mas essa reflexão é fundamental para a afinação do
diálogo entre realizadores e patrocinadores.
Soma-se a isso a
precariedade do nosso setor turístico e a falta de sensibilidade das
empresas em apoiarem um acontecimento tão feliz para a cidade.
Nesse caminho vamos
encontrando aqui e ali, alguns que ainda estão vivos e se entusiasmam.
À administração do Páteo do Colégio rendemos elogios, pois o Padre
Contieri e sua secretária Priscila Correa foram de extrema importância
para o festival acontecer nesse belo cenário.
Não podemos dizer o
mesmo dos prédios públicos ao redor do Páteo do Colégio. Existem pelo
menos três órgãos que de público não tem nada. Um deles curiosamente
abriga a Secretaria de Direitos Humanos. Sugerimos à todos uma
visita... A burocracia e a falta de sensibilidade é algo que não devemos
aceitar, mas em uma secretaria que se intitula de direitos humanos isso
é uma ofensa. Os prédios da Secretaria da Justiça têm em sua porta
seguranças que barram a sua passagem a menor menção de olhar o belo
pátio interno que eles possuem um deles ironicamente nomeado Pátio da
Cidadania. Por quê? Ali seria um belo lugar para realizar apresentações
quando chove ou quando faz frio. Existe um potencial artístico na cidade
que não é explorado!
E, no entanto o
festival aconteceu, mas ficam diversas perguntas:
E o ano que vem?
O que aprendemos
com esse?
Valeu a pena tanto
trabalho se não há a mínima certeza de continuidade?
Será que os
envolvidos vão reavaliar suas posições burocráticas e refletir sobre seu
papel diante da arte e da sociedade?
Que só vamos
selecionar trabalhos artísticos que tenham sido REALMENTE criados na e
para a rua, mesmo correndo o risco de ficar com três ou quatro
apresentações?
Creio que ainda é
cedo para tais conclusões, mas as perguntas nos motivam a refletir e
definir parâmetros para os próximos anos.
Ficamos imensamente
felizes com o resultado e com o retorno do público que acompanhou o IV
Visões Urbanas, reafirmando esse projeto como um acontecimento essencial
para a cidade.
Para finalizar
agradecemos os mais de 70 projetos recebidos, os profissionais
envolvidos na produção e na logística do festival, aos mais de 90
artistas que dançaram, produziram, compuseram musicas, operaram o som ou
tocaram ao vivo, criaram figurinos, registraram, desenvolveram idéias
cenográficas movimentando o mundo da dança.
À todos muito
obrigado.
Mirtes Calheiros
Ederson Lopes
The Woody projetos
artísticos e culturais
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