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Eu me Recuso a Explicar.
Antes eu escrevia bastante. Lia bastante. Escrevia de tudo, poesia, artigos que queriam ser ensaios sobre arte, contos. Até que empapucei. No meio da leitura de Jangada de Pedra do Saramago, empapucei. Fiquei um bom tempo sem ler. De escrever também. Um pouco depois. Gostava muito de escrever para os Artesãos do Corpo. Objetivos e Justificativas em projetos para receber recursos de produção. Textos teóricos, cenas, resumos de livros. Empapucei. Não, na verdade foi o oposto, eu acho. Não me senti cheio ou enjoado, me senti vazio, incapaz de escrever, sem saber por onde começar, sentindo que tudo já havia sido escrito, que não havia ponto de partida que valesse o esforço. Escrever artigos teóricos, então, parecia a inutilidade maior possível. Estabelecer a relação entre o butô e, sei lá, o modernismo antropofágico, por exemplo, era um exercício masturbatório, que não acrescenta nada, não cria conhecimento, não ajuda ninguém a produzir nada, só estabelece pontes, muitas vezes forçadas e parciais, ou puramente formais e acidentais.
Mas vou escrever para explicar porque parei de escrever. Eu preciso. Talvez soe ridículo, mas é o que faço melhor. Imagine como faço as outras coisas. Não fazer isso, tentar coisas diferentes, me desafiar diariamente me deixou perdido. Preciso de chão.
A cena de abertura do espetáculo Valparaíso, terceira criação dos Artesãos do Corpo, é um monólogo que havia escrito logo quando nos propusemoas a versar sobre artes plásticas, uns bons anos antes de eu poder interpretá-lo para uma platéia. É um crítico tirando leite de pedra, usando sua verborragia para preencher de significado uma "obra" simplíssima. É uma crítica a mim, os críticos esnobes, aos artistas que legendam suas obras. Mas pobre de mim, como quase sempre, a vida superou a ficção, e a cada dia eu vejo... Tudo bem, a cada semana, vê alguém, que por acaso se leva a sério, superar o esnobismo intelectual que tentei retratar e satirizar. Vendo entrevistas com artistas de Bienal, lendo revistas especializadas, um pseudo-Pollock pode preencher sete páginas centrais facilmente. Nada que eu possa discordar, por realmente não dá pra saber do que o cara tá falando. Parece mais que fala de si mesmo, principalmente de quantos livros leu, haja vista o número de citações e nomes de peso mencionados.
Será que a Palavra dominou o mundo? Nem o dinheiro, nem o sexo. A Palavra está em todo lugar, por trás de tudo, é o estofo que vem dar realidade a tudo. Afinal, ela que (claro!) dá significado a tudo. Sem ela, tudo (é claro!) é só aparência, é vazio.
Eu que desisti da faculdade de Propaganda, porque o exercício de criatividade que fora prometido antes do vestibular se revelou uma máquina de criar significados para mercadorias. Eu que desisti do Teatro porque não aguentava mais decorar texto, fazer trabalho de mesa, abaixar a cabeça para as supostas intenções do autor, o superobjetivo do escritor. De que mais vou desistir? Estarão certos os judeus, ou Jesus, ou São João? Deus é um nome, a palavra, o verbo?
Quem quer dinheiro pra fazer arte? Basta escrever bonito. Ninguém vai lá ver suas anotações, seus ensaios, ninguém vai telefonar para seus fornecedores. Basta escrever que vai fazer uma coisa assim e assado, e se bater com as idéias de quem vai te julgar, jackpot. E depois a famigerada justificativa. Como assim? Isso não existe. Eu resolvo criar uma cena por que me dão um tema, por que vejo uma coisa na rua ou no jornal e me dá um troço no estômago e um click na cabeça, e fazer ou não fazer é o que deferência ter uma vida ou não. Não é possível que exista alguém que faça sua arte dessa forma. - Bem hoje vou falar de amor, mas eu quero falar de amor de uma maneira que se veja tal e tal mensagem. Não! Primeiro o desejo. Antes de saber do que estou falando, tenho vontade de fazer. E depois descubro e outros descobrem comigo que eu posso ver este e aquele significado. Estabelecer um fim e tentar dar forma a ele é estupidez, é uma empresa destinada ao fracasso, e se expor inconscientemente. Vai sair outra coisa.
Sartre criou o adágio, a existência precede a essência. Antes de existirem observadores, analisadores, interpretadores, existe a coisa. Mesmo sem nenhuma consciência para perceber, ou até mesmo aplicar a razão sobre, coisas existem. Por mais que a religião queira que o espírito preceda, por mais que descartes queira que o pensamento preceda, espírito e pensamente se deduzem de observações parciais do corpo. Descartes viveu na época em que homens criavam máquinas inúteis, pelo puro prazer de ver mecanismos em movimento, e depois vem me falar que o corpo funciona como uma máquina. As palavras deus, ídolo e escorrer têm a mesma raiz. Os homens escorreram metal fundido, fizeram um ídolo e se ajoelharam diante de seu deus. O homem cria algo e diz que esse algo o precede. Alguém aí pode me explicar?
Eu me recuso a explicar a minha arte. Posso conversar até sobre ela, mas explicar? O que você quis dizer com aquilo? Desculpe-me, eu não quis dizer, eu disse. Cenas e movimentos é o modo como eu digo as coisas, às vezes até com cores e formas. Se eu tivesse querido dizer alguma coisa, eu diria, se quisesse eternizar o que quis dizer (por mais que meu desejo cambie) eu teria escrito um panfleto, um manifesto, sei lá. Schopenhauer e James Joyce são claros quanto a isentar a arte do desejo. A arte não quer. Mesmo que se fale de desejo, mesmo um Almodóvar, a obra não é um querer dizer. É uma coincidência de conteúdo e forma. A palavra não pede ser um intermediário universal para as coisas invisíveis. Mesmo porque a arte é visível, invisível só o que se estabelece entre obra e o fruidor da obra. E assim vamos afundando na arte burocrática, na qual se julgam artistas à distância, na qual a idéia e a fama fundam hegemonia. Pra que realizar uma obra, se trata-se apenas de um trocadilho com seu título? Se eu pego frutas de cera e intitulo 'natureza-morta', tudo que há para se tirar da sagacidade o dito artista já não se esgotou? Para que existir a obra? Que diferença faz presenciar ou ouvir falar?
Chega de palavras. Palavras apenas para conversar. Chega de palavras para preencher. Chega de palavras para justificar. Posso justificar se meu interlocutor não se conectar, mas uma arte que só se legitima na palavra, qualquer coisa que só se legitima na palavra, é o vazio abismal, nem é o vazio de onde algo surge, não é o vazio que pede criação, é um vazio abarrotado que não possibilita movimento.
Ken Kronaz - 8/05.
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