Processo criativo - Cordeiro

Comecei essa criação ou coreografia pela necessidade de mostrar uma síntese breve de meu conhecimento sobre o movimento. Na verdade, era a necessidade de sintetizar o que levei anos para aprender e deveria mostrar em uma banca para avaliação de no máximo três minutos.

 

Foi muito difícil fazer essa sistematização, manter um sentido, uma união de maneira suave e forte sem reproduzir os movimentos aprendidos anteriormente e ao mesmo tempo manter um elo com o cerne da inspiração.

 

Essa inspiração vem de meus estudos anteriores. Eu poderia ter escolhido reproduzir qualquer um dos “tipos” (por falta de um adjetivo melhor) de dança que já havia aprendido até então, mas resolvi transpor, como um desafio, para esses três minutos, um pouco de tudo que me alimentava como repertório, técnica e essência.

 

Felizmente o resultado foi surpreendente. Resolvi investigar um pouco mais, partindo desses passos e gestos presentes na encenação das danças brasileiras, que contam fatos do cotidiano e brincam com os mistérios da vida.

 

A maior parte destes gestos, presentes na coreografia foram construídos por uma necessidade pessoal a partir dos meus estudos baseados no movimento das manifestações populares que conheço (o cavalo marinho, o reisado, o frevo, o maracatu entre outros) bem como nas crenças e mitos presentes no imaginário humano.

 

Fui, então, na nascente desse “corpo-próprio” em conjunto com as novas inspirações - o tango, o do-ho, por exemplo – para criar uma seqüência de movimentos e uma gestualidade própria dentro desse universo de possibilidades.

 

Concebi esse trabalho com prazer, dúvidas, dor e amor: como um parto. Agora ele precisa de um nome, precisa ser identificado por mim antes de ser mostrado, apresentado ao mundo.

 

Refletindo sobre a respiração, o ar que nos rodeia e que preenche nossos espaços internos, compreendi que ele veio em um momento de criação coletiva onde trabalhávamos arduamente para construirmos um Brasil ideal e social (real) – com seus altos e baixos.

 

Pensei na lua e seus mistérios e como ela também faz parte do imaginário coletivo - a lua de São Jorge, o sonho do homem de pisar na lua, a atração, a gravidade, as marés...

 

Com tantas dúvidas pensei em colocar o nome de LUAR, aliando tudo o que é palpável, físico, concreto com o que o ilimitável proporcionado por nossa imaginação, mas achei romântico demais, talvez porque estou contaminada por certo aroma de fantasia frágil.

Com o tempo concluí que a palavra ELO caberia melhor para sintetizar de forma mais precisa essas necessidades coletivas e pessoais presentes em uma criação artística: a confiança e a competência, a tranqüilidade e a ansiedade a criatividade que transborda e que toma conta dos espaços “vazios” e, portanto reafirma a fortaleza de nossa linguagem.

 

                                                                                                                Bárbara Freitas

 

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